Greve Geral

Aguardei a greve geral com alguma expectativa. Em 88 tinha 15 anos e vivia noutra cidade, mas tenho bem presente o tom grave dos locutores do Telejornal. No ar ainda se sentia que alguma coisa poderia acontecer. Mas tudo acabou na morna do costume e Cavaco permitiu-se falar em greve parcialíssima. Em 2010, o enredo é outro e a greve banalizou-se, não obstante a retórica dramatizante dos sindicatos e partidos de esquerda que, numa última tentativa, procuram despertar consciências. No entanto, parece-me que a dramatização feita pela outra banda, isto é, pelo governo e PSD, tem tido uma eficácia muito maior, de tal modo, que a necessidade do sacrifício parece bem interiorizada, mais uma vez, pelos portugueses. Os portugueses são sempre dóceis e uma greve geral por cá não se reveste da combatividade e nem sequer da ocupação das ruas como se vê por essa Europa fora. Aliás, à falta de assunto, os repórteres da SIC acabaram por entrevistar os enviados estrangeiros e entre estes a pergunta era sempre a mesma: onde param as pessoas? De facto, as ruas, pela manhã, tiveram um pouco mais de tráfego, mas nada de extraordinário. Até ao fim do dia o trânsito foi diminuindo de intensidade até se aproximar daquilo que seria um domingo à tarde. O comércio continuou de portas abertas e as ruas bem compostas. Depois do almoço, passei pela Praça da Batalha para ver o que se passava quanto ao TNSJ. Não estando a questão directamente relacionada com a greve, não deixa de ser mais um sintoma de um descontentamento larvar contra este estado das coisas e, sobretudo, uma manifestação de descontentamento despertada por uma percepção cada vez mais nítida de que a cidade e o norte não têm vindo a ser tratados de uma forma justa e leal pelo governo de Lisboa. Na minha deambulação pela Baixa ainda passei pelos Aliados, onde pequenos grupos (incluindo anarquistas) pontuavam a praça/avenida. Ao fundo, na praça da Liberdade finalmente uma amostra de manifestação. Gente convicta, encenando a liturgia do dia. De parte, um reformado contramanifesta-se: «Vão é trabalhar!». Pelas ruas das nossas cidades já não correm manifestações. É claro que numa greve geral, que afecta sobretudo os transportes públicos, se torna difícil a tarefa de mobilizar os cidadãos, mas esta imobilidade é outra: a revolta disfarça-se de resignação. Resta saber se esta continua lá e se algum dia virá ao de cima.

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