Reportagem Público: “Estamos vivendo a segunda promessa de felicidade do Brasil”

As janelas deste atelier têm vista para a primeira promessa de felicidade do Brasil, o Edifício Copan, de Óscar Niemeyer: 38 andares, mais de mil apartamentos, mais de cinco mil habitantes, um dos maiores espaços residenciais do mundo, todo em forma de S. Um grande movimento ondulante no meio das linhas verticais de São Paulo.

“O Copan é emblemático porque retrata uma crença no desenvolvimento pós-guerra, o projecto de um país que nos anos seguintes não deu certo”, resume Fernando Mello Franco, arquitecto, urbanista, professor. Dá aulas em Harvard e em São Paulo, e colabora com Paulo Mendes da Rocha (Prémio Pritzker, o Nobel da arquitectura).

Corriam os anos 50, quando Niemeyer projectou o Copan, pouco antes de Brasília. “Tem desde kitchnette-e-quarto de prostituta até apartamentos de quatro quartos. Esse projecto moderno acreditava numa sociedade plural. Era a década da bossa nova, uma promessa de felicidade que não vingou. E o que estamos vivendo hoje é uma segunda promessa de felicidade no Brasil.”

Que não deixa de ser uma promessa “perigosa”.

O discurso de Mello Franco não é “lulista”. Ele vem da elite intelectual paulistana que recusa o neoliberalismo e vê o comportamento do PT com reservas.

“A pujança brasileira é real, houve uma melhora substantiva. Mas o que está a acontecer é fruto dos 15 anos de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e Lula.” Começando pelo “plano brilhante para acabar com a inflação”.

A geração deste arquitecto cresceu com o pânico dos 80 por cento de inflação ao mês. “Qualquer dinheiro que você deixasse parado desvalorizava.” FHC resolveu isso. Que fez Lula depois? “Continuou a política macroeconómica e expandiu programas assistencialistas [como o Bolsa Família], que possibilitaram a emergência da classe média.” Num clima que Mello Franco compara a Getúlio Vargas, no Brasil, e Perón, na Argentina. “Lula é essa figura populista, com grande capacidade de comunicação, que se porta como o pai de todos nós e vende a imagem de Dilma como a mãe. E isso é muito perigoso. Não estão a trabalhar na construção de uma consciência de esquerda. O populista não é o pai que quer ver os filhos crescerem.”

Dupla aliança

No tempo da primeira promessa de felicidade, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek “ampararam-se na arquitectura moderna, elegeram-na como porta-estandarte do Estado”. Mas quem acabou por usar Brasília foi a ditadura militar, que “dizia que ia fazer o bolo crescer e nunca repartiu”.

As grandes desigualdades no Brasil vêm daí.

Na actual segunda promessa de felicidade, Lula “fez uma dupla aliança”. Por um lado, os programas assistencialistas. Por outro, “os bancos nunca ganharam tanto dinheiro”, e são favorecidas “as empresas que têm capacidade de competir: as indústrias da carne, da cana, da construção civil”. Em suma: “Há uma difusão na base, com o assistencialismo, e uma concentração no topo.”

E que significam os 30 milhões que ascenderam até ao meio? “Fundamentalmente, acesso ao consumo, o que é diferente da cidadania.” Consumo básico, “linha branca”: frigorífico, máquina de lavar, coisas que o pobre não tinha. “Os brasileiros nunca consumiram tanto e nunca se endividaram tanto. Somos quase 200 milhões e conseguimos atravessar a crise global consumindo mais e mais no mercado interno.”

Mas só isso não chega.

“O grande desafio do Brasil a partir dessa eleição já não é mais a distribuição da renda nos estratos mais baixos. É a educação. Sem melhor educação o país não pode sustentar o desenvolvimento.”

Em pequenas cidades como Diamantina, no interior de Minas Gerais, há hoje 30 cursos universitários. Houve “uma explosão”, sim, reconhece Mello Franco. “Quando entrei na faculdade de Arquitectura, havia três cursos em São Paulo, agora são 30.” O problema é que “só meia-dúzia servem”. Ou seja, a multiplicação “não se traduz necessariamente numa melhoria”.

Fonte – Jornal Público

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