Banca domina Aliados quase sem moradores

O negócio da banca continua a mandar nos Aliados. A partida da sucursais bancárias da principal avenida do Porto tem sido lenta e a chegada do comércio de luxo para este ano, preconizada pelo estudo da CB Richard Elis há três anos, ainda não aconteceu.

Há novos cafés e, em breve, um hotel de cinco estrelas com a abertura do grupo Intercontinental no Palácio das Cardosas. Mas o coração da Invicta continua a pertencer aos bancos e aos escritórios, sobrando pouco espaço para habitação. Em 2007, a empresa CB Richard Elis considerou que os Aliados se resumiam a “restauração, agências bancárias e seguradoras, agências de viagens, stands de automóveis e lojas de preços baixos”.

A descrição, contida num estudo encomendado pela sociedade Porto Vivo e que se propunha ser o arranque de uma grande transformação comercial na avenida, ainda hoje é válida.

O comércio de qualidade e com marcas internacionais de luxo não atracou por ali. Até a ideia de saída do Banco de Portugal para converter o edifício monumental no “welcome center” da cidade com informação diversificada para os turistas foi abandonada.

No que toca a habitação, as casas que restam nos quarteirões em torno da avenida e da Praça da Liberdade estão quase todas devolutas.

O número de moradores tem decrescido ao longo dos anos. Sobram poucos resistentes, como Maria Matos e Amélia Gama (ler texto na página seguinte) que conquistaram o raro privilégio de espreitar os Aliados da janela da habitação há décadas.

Há 10 anos, os Censos de 2001 garantiam a existência de 115 habitantes nos quarteirões que cercam os Aliados. Volvidos cinco anos, o levantamento da Porto Vivo apontava para cerca de 90 a ocuparem 47 fogos. Hoje, crê-se que sobrarão meia dúzia de habitações ocupadas nos edifícios com vista para a avenida.

A atracção de novos habitantes aos Aliados e à Praça da Liberdade esbarra numa dificuldade física, como elucida fonte da Porto Vivo em resposta ao JN. A grande maioria dos prédios, voltados para a avenida, “foi construída de raiz para actividades de serviços e de hotelaria, apresentando uma configuração interior que não se presta a usos habitacionais, excepto se foram completamente transformados”, adianta.

Não é de estranhar, então, que, em cerca de 30 anúncios de arrendamento de fracções nos 10 quarteirões na envolvente dos Aliados, só um se destine a habitação e os restantes a escritórios e a comércio.

Há, contudo, sinais de esperança para a revitalização do coração da Invicta, para além da abertura de espaços de restauração. A Porto Vivo já licenciou a transformação da antiga Pensão Monumental num edifício de habitação com 25 apartamentos de tipologias T0 a T4, assim como a requalificação do prédio nº22-26 no quarteirão da Viela dos Congregados para erguer oito habitações T0. As obras ainda não começaram.

Em fase de licenciamento municipal, encontra-se a recuperação de dois edifícios da Praça da Liberdade, no quarteirão do Banco de Portugal, que têm entrada pela Rua do Almada nº18 e 36/40. Estas intervenções criarão seis apartamentos novos.

Saudades da Baixa onde a noite era vivida

Há 56 anos que Maria Matos espreita, diariamente, os Aliados da janela do quarto. Foi a vista para a avenida, bem diferente da actual, que a deixou rendida ao apartamento no 3º andar da Rua de Rodrigues Sampaio. A renda era mais cara do que a da pequena casa onde vivia no Bonjardim com o marido. Nada havia a fazer: Não quis perder aquela vista.

“O meu marido era portuense e também gostava muito dos Aliados. Nessa altura, viemos para aqui pagar 900 escudos de renda. Era muito dinheiro. Ainda vi casas na Rua do Almada. Não gostei, porque tinha muitas ferragens… E não tinha esta vista”, suspira a moradora de 80 anos, que não perde o fôlego a subir, dia após dia, a íngreme escadaria até à habitação no topo do prédio. Quase todos os dias, vai às compras no mercado do Bolhão.

A família cresceu e os dois filhos conquistaram a independência. Hoje, Maria, minhota que aos oito anos abalou para a Invicta pela mão da madrinha, vive sozinha na companhia da gatinha Vitória. Não troca a casa por nada, embora gostasse mais da vida que ali existia antigamente. Não faltavam vizinhos e crianças a morarem nos quarteirões contíguos. Há 35 anos começou a debandada. “Ficaram os mais velhos e muitos já morreram. O resto foi embora”, concretiza.

Uma das recordações mais preciosas é a dos cinemas da Baixa com as ruas apinhadas de gente. E a avenida ainda tinha um jardim. A octogenária não se conforma com o desenho de Siza. “Até choro de saudades do Porto de antigamente”, confessa. As peças do La Féria, atenta Maria, trazem algumas pessoas, mas “vão e vêm”. Não há animação à noite.

“Eu ia sempre às estreias de cinema no Rivoli, no Trindade e no Águia D’Ouro. Vi filmes lindíssimos. Depois, tomava café já passava da meia-noite. Fazia-se tudo a pé, sem medo. De 20 em 20 metros, via-se um polícia. Tenho saudades desse tempo. Tudo isto desapareceu”, lamenta a moradora. Não muito longe, mora Amália Gama num prédio nos Aliados, também inconformada com a desertificação e a perda do jardim.

“As obras do metro modificaram tudo. No Verão, havia mais gente. As pessoas sentavam-se nos bancos e nós costumávamos descer à noite para o jardim. Ainda temos filmagens dos miúdos a brincarem com as pombas. O local é o mesmo, mas era mais bonito antigamente”. Amália mudou-se com o marido – antigo funcionário da Misericórdia que, por concurso, ganhou o direito à habitação nos Aliados – e os filhos há 25 anos para a avenida.

“As casas são centenárias, mas compensa a localização. Íamos a pé para o trabalho, fazíamos e ainda fazemos as compras no Bolhão. Fica tudo perto”, assinala Amália, confidenciado o amor dos filhos pelo centro: “Gostam muito de viver aqui”. É verdade que, quando se mudou para os Aliados, já tinha poucos vizinhos, mas cada vez são menos. Para Amália, a avenida perdeu o encanto de outrora.

“No início, os familiares vinham cá casa quando havia festa nos Aliados e víamos das janelas. Era o Porto campeão, a passagem de ano, o 25 de Abril e o 1 de Maio. Agora põem palcos aqui à frente a qualquer altura. É uma barulheira e acaba por ser cansativo”.

Fonte – Jornal de Notícias

Anúncios
Esta entrada foi publicada em 1. Imprensa, Blogosfera e Web, 4. Património e Centros Históricos com as etiquetas . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s