Azulejos da estação de S. Bento restaurados ao pormenor

Os painéis de azulejos da estação de S. Bento, no Porto, estão a ser restaurados, com ajuda de escovas de dentes. A empreitada custa 166,5 mil euros e ficará concluída em Abril de 2011. Na cidade, enquanto particulares reabilitam fachadas, há igrejas a pedir obras.

A intervenção de conservação e restauro dos painéis da estação resulta de um protocolo entre a Rede Ferroviária Nacional (REFER) e a Direcção Regional de Cultura do Norte, até porque a gare está classificada como imóvel de interesse público pela Secretaria de Estado da Cultura.

A altura dos andaimes, distribuídos por cinco patamares com corredores estreitos, por cima do acesso à loja de câmbios, chamam a atenção de quem chega ao átrio da estação de S. Bento, seja quem passa com ar ligeiro para apanhar o comboio, seja o turista que se aproxima de mapa da cidade aberto, preparado para contemplar os painéis pintados pelo artista Jorge Colaço que, no início do século passado, pintou cenas alusivas à história de Portugal e à evolução dos transportes.

Quase a tocar o tecto, a 12 metros do solo, cinco conservadores-restauradores repetem movimentos circulares sobre os azulejos.

“Depois de uma pré-consolidação dos azulejos, passamos à fase da limpeza e estes painéis apresentam bastante depósito de poluição atmosférica”, descreveu o conservador-restaurador, Alexandre Sá Viana. “Água, detergente neutro, bisturis, algodão e escovas de dentes” são alguns dos materiais usados nesta delicada fase da intervenção, enumerou o mesmo responsável.

Apesar do esforço, só duas fiadas do imenso painel, decorado com 20 mil azulejos, vão ganhando brilho. Grande parte do revestimento de S. Bento está ainda coberto por uma “resina acrílica”, que nos últimos anos assegurou que os quadrados de cerâmica não caíssem.

Aliás, em 2007, o JN dava conta que “alguns azulejos” estavam “seguros com fita adesiva há já algum tempo”. Agora, o prazo de execução da obra indica que a intervenção ficará pronta no próximo ano, em Abril, e custará 166,5 mil euros.

No resto da cidade – “local de excepção em azulejaria”, como definiu, ao JN, Pedro Saraiva, director do Departamento Municipal de Museus e Património Cultural –, o mais difícil é “combater o roubo de azulejos”.

Para combater “o vandalismo de coleccionadores”, a Câmara do Porto tem trabalhado em parceria com a Polícia Judiciária, no “SOS Azulejo”.

O projecto é de iniciativa e coordenação do Museu de Polícia Judiciária, órgão da Escola de Polícia Judiciária, e nasceu “da necessidade imperiosa de combater a grave delapidação do património azulejar português que se verifica actualmente, de modo crescente e alarmante, sobretudo por furto, mas também por vandalismo e incúria”.

No entanto, os painéis de azulejos no Porto não se tem perdido apenas por motivos criminais, mas também por ausência de cuidados de conservação. Em várias igrejas do Porto, como são disso exemplo a de Santo Ildefonso e a de Santo António dos Congregados, “há obras urgentes que se querem concretizar” nas fachadas dos edifícios, lê-se nos avisos afixados no interior dos templos.

Já na Igreja de Massarelos, no local de quatro azulejos que caíram (colocados em 1960, da autoria de Mendes da Silva), foi posto um padrão diferente que se destaca pela negativa.

Ainda assim, muitos têm sido os privados que com a ajuda e aconselhamento do Banco de Materiais têm recuperado as suas fachadas.

Banco de Materiais

A maioria não o conhece, mas os interessados sabem da sua existência. É quase na sombra que é feito todo o trabalho no Banco de Materiais, residente na Casa Tait, no Porto, que tem como missão “a preservação de diferentes materiais, com predominância dos azulejos”, explicou, ao JN, Pedro Saraiva, director do Departamento Municipal de Museus e Património Cultural.

Porém, mal se chega ao edifício vizinho ao Museu Romântico da Quinta da Macieirinha, descendo a Rua de Entrequintas, descobre-se que o Banco de Materiais é, igualmente, um arquivo interessantíssimo de elementos cerâmicos que qualquer turista teria prazer em conhecer. No entanto, não há por ali visitas guiadas.

“É um espólio vasto com cerca de 40 mil peças, entre placas toponímicas, ferros (forjados e fundidos), cantarias lavradas, estátuas, beirais, e azulejos”, descreveu, ao JN, Maria Augusta Marques, coordenadora do espaço criado há duas décadas. Espólio esse que, depois de devidamente inventariado se torna “único por documentar o espaço urbano da cidade do Porto”, reitera a mesma responsável.

A aspiração da escassa equipa do Banco de Materiais (apenas com quatro funcionários) “é conseguir a catalogação de todos os edifícios com azulejos do Porto”, disse Maria Augusta Marques, sublinhando que Santo Ildefonso e Bonfim são as freguesias onde se pode encontrar o maior número de painéis azulejares.

Afinal, os quadrados em cerâmica que forram as fachadas dos edifícios “são uma característica mais que evidente” na cidade Invicta. “São como uma marca identitária”, acrescentou a técnica.

E, se cada vez mais, os azulejos são vistos “como património a defender”, o Banco de Materiais – que possui 3200 padrões diferentes – recebe mensalmente “cerca dez pedidos” de particulares que recorrem a este depósito para preencher pequenas falhas de antigas fachadas. O munícipe recebe também o aconselhamento dos técnicos do Banco de Materiais e dos serviços do urbanismo da Câmara do Porto que recomendam o recurso às réplicas. “Se tivermos aquele padrão em excedente, damos os azulejos sem qualquer custo para a pessoa”, confirmou Maria Augusta Marques.

Mas até aos azulejos ficarem prontos para serem novamente repostos em alguma fachada, os técnicos do Banco de Materiais cumprem a paciente tarefa de os limpar e restaurar.

De pico na mão, Jorge Almeida vai tirando as camadas de argamassa que cada azulejo trás no verso. “Tem de ser uma limpeza paciente”, aponta a coordenadora do Banco de Materiais. Mas as mãos de Jorge, por mais que tenham abraçado este trabalho há 11 anos, gostam mais de pintar.

Por isso, vai fazendo “o registo gráfico colorido” de cada azulejo com a ajuda de uma fotocópia com o desenho real e lápis de cor com que faz os contornos. O neto, Dário, parece seguir-lhe as pisadas e copia-lhe os movimentos.

Ainda assim, o Banco de Materiais tem também todo o inventário fotografado, até porque “há amerelos que chegam a ter três tonalidades diferentes e torna-se difícil distingui-los”, concluiu Maria Augusta Marques.

Fonte – Jornal de Notícias

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