Uma viagem por três Lisboas e muitos séculos faz-se em meia dúzia de passos

295521O núcleo arqueológico do castelo, que começou a ser escavado em 1996 quando se pensou fazer ali um parque de estacionamento, abriu hoje com pompa e circunstância – uma performance da Companhia de Ópera do Castelo, discurso do presidente da câmara, António Costa a falar da Lisboa “encruzilhada de culturas”, outro discurso do arquitecto João Luís Carrilho da Graça, responsável pelo projecto, embaixadores de países islâmicos, chá e frutos secos, como se comeriam na época em que estas casas eram habitadas.

Este não é um núcleo arqueológico comum. “Em Lisboa não há nada semelhante”, garante Ana Gomes, que, juntamente com Alexandra Gaspar, é a responsável pelas escavações. “Estamos num espaço urbano. Não seria crível que fôssemos encontrar casas com 200 metros de área, ainda com pinturas e pavimentos.”

Quando os trabalhos começaram sabiam que era provável aparecerem ruínas do Palácio dos Condes de Santiago (sécs. XV-XVIII, que ruiu com o terramoto de 1755) e que se sabia ter sido construído sobre o Paço dos Bispos (sécs. XII a XV). “Tudo isto estava metido na terra até aqui” – Ana levanta o braço apontando bem acima das nossas cabeças. De facto, lá estava o palácio, mas rapidamente começaram a aparecer vestígios, primeiro de um muro da época islâmica e depois das ruínas de duas grandes casas. Tão bem conservadas que ainda mantêm estuques pintados e decorados com motivos geométricos e com o chamado “cordão da felicidade”.

Mas escavaram mais (noutro ponto) e o que surgiu foram vestígios de habitações da Idade do Ferro (do século VII a.C. ao século III a.C.): o que se pensa ser uma cozinha, com uma área de fogo e restos de panelas, potes, taças e ânforas (que podem ser vistos no núcleo museológico, situado também dentro das muralhas do castelo). Existem, portanto, vestígios de três épocas distintas.

Quando conheceu as escavações, Carrilho da Graça lembrou-se das ruínas romanas de Volubilis, em Marrocos. “Lembro-me de estar lá e pensar que seria interessante termos ali a materialização de uma daquelas casas. Achei mais interessante explorar a espacialidade do que fazer o que estava previsto, que era construir um alpendre para proteger as ruínas.”

Pré-história ali ao lado

É também por isso que este é um núcleo arqueológico especial – porque aqui arqueologia e arquitectura cruzam-se e, pelo que disseram todos os envolvidos, foi um cruzamento cheio de tensões, e até de discussões violentas.

Perante o que restava das paredes das casas islâmicas, Carrilho da Graça fê-las crescer e criou uma casa de paredes brancas, o mais semelhante possível com a que ali terá existido, deixando-a como que a pairar sobre as ruínas – “um milagre da levitação das paredes”, disse António Costa.

É por isso que, em vez do esforço de imaginação que geralmente fazemos perante ruínas, aqui tornamo-nos uns convidados vindos do futuro para entrar na casa dos nossos antepassados e tentarmos perceber como eles viviam. Temos o pátio interior, com o jardim central, as várias divisões, e até as pinturas na parede.

Ao lado, passamos para a pré-história e aí o arquitecto criou uma espécie de caixa de aço (o mesmo aço que circunda toda a escavação, demarcando-a), com uma abertura rasgada pela qual podemos espreitar para o fundo (esta é uma escavação mais profunda). “Havia uma estrutura metálica a conter o terreno em redor e tinha tal ferocidade que decidi deixá-la aparente”, explica Carrilho da Graça. O facto de espreitarmos por uma fenda “cria um ambiente de mistério” que ajuda à cenografia que o arquitecto quis fazer em todo o espaço.

Por fim, na zona do palácio não era necessário uma protecção como nas outras duas áreas, pelo que Carrilho da Graça limitou-se a criar uma espécie de tecto com um espelho que reflecte o chão dos séculos XV e XVI. E assim, debaixo dos nossos pés, sobre as nossas cabeças, nas paredes à nossa volta, renascem não uma mas três Lisboas – e a viagem no tempo demora apenas meia dúzia de passos.

Fonte – Jornal Público

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