Lisboa em meia dúzia de traços – Urban Sketchers

O Jornal Público publicou uma excelente reportagem sobre Urban Sketchers em Lisboa. Leiam que vale bem a pena.

Desenham o mundo em cadernos, que são baús de experiências, partilhados online. Encontram-se de vez em quando na capital e esboçam o que nela há de particular. São os Urban Sketchers, agora no cimo do Elevador de Santa Justa.

Tarde de sábado, Largo do Carmo. Por agora vazio, cinzento, encoberto pelas nuvens que anunciam chuva. Apenas turistas, poucos, e numa cadeira de esplanada uma mulher que se destaca pelo tom encarnado dos cabelos. Marisa Noblejas, artista plástica há quase 20 anos, diz ser a sua primeira vez. Soube dos encontros de diários gráficos por uma amiga ilustradora, e aguarda, sozinha, o grupo que combinou reunir-se pelas 15h no largo. As primeiras gotas de água caem e Marisa apressa-se, debaixo do seu chapéu de lõ branco, a abrigar-se.

Ao fundo, um grupo de pessoas começa a juntar-se. Uma voz masculina ressalta entre os murmúrios. É Eduardo Salavisa, artista e professor, que esclarece a actividade de hoje – um convívio que tem por objectivo “simplesmente desenhar”. Do largo até ao Elevador de Santa Justa, das 15h às 17h, simplesmente lápis, papel e disponibilidade para observar. Autor do livro Diários de Viagem, Eduardo dedica-se ao “registo sistemático do quotidiano” no seu caderno, objecto indispensável para aqueles que, como ele, narram viagens e guardam memórias através do traço.

Licenciado pela Escola de Belas-Artes de Lisboa, Eduardo é um dos precursores do projecto Urban Sketchers em Portugal. O conceito surgiu em 2007, pelo ilustrador e jornalista espanhol Gabi Campanario, residente em Seattle, costa oeste dos Estados Unidos. A partilha de diários gráficos entre um pequeno grupo de pessoas depressa se transformou num blogue de sucesso. Gabi convocou então 12 correspondentes de diversos países. Em Portugal, foi Eduardo. Há cerca de um ano surgiu a versão portuguesa do blogue, onde participam já mais de 60 pessoas.

Helena Monteiro, de 64 anos, é uma delas. “Isto é contagiante, viciante”, afirma a professora que já acompanhou diversos encontros e vê neles uma forma de conviver e aprender com os amigos. O caderno segue consigo pela vida fora – “das minhas viagens, hoje pouco mais trago; para além das palavras que sempre me acompanharam, os desenhos e aguadas que vou fazendo”.

Ao encontro de hoje juntou-se Susana Mendes Silva, que explica o porquê do local escolhido. De máquina fotográfica ao peito, a artista plástica de 37 anos expõe o seu projecto – um texto em forma de carta, colado nos vidros das cabinas do Elevador de Santa Justa. A carta convoca os passageiros a participar num “arquivo de memórias e afectos sobre o elevador”. Arquivo este digital, ou melhor, um blogue criado por Susana, constituído por testemunhos de numerosas origens e formas.

Quem não sabe, reinventa

Finda a apresentação do encontro, o vazio e o silêncio parecem regressar ao largo. Já não se ouvem vozes. Se não fosse o vento, talvez se ouvisse até o lápis riscar o papel. Desapareceu, ao fundo, o grupo de murmúrios, há agora pessoas dispersas pelo largo, cada uma com o seu caderno, cada uma com o seu modo de olhar as coisas. E nem mesmo o céu carregado de nuvens, que ameaça transformar em aguarelas os desenhos, as paralisa. “Será que podemos inventar?”, pergunta uma voz baixa. “Quem não sabe inventa. Ou melhor, reinventa.”

A chuva não quer colaborar e, por isso, a maioria dos participantes segue para o elevador. Cá de cima ouve-se a carrinha do fado, estacionada na Rua do Carmo. Amália canta Barco Negro enquanto a chuva vai manchando as folhas brancas rabiscadas dos cadernos. Ao lado de uma das cabinas do elevador, uma mulher acende um cigarro. Confunde-se com uma turista, não fosse o papel e a caneta estarem no lugar da máquina fotográfica. Há quem se concentre no Museu Arqueológico, quem evite a chuva nas imediações do elevador, quem desenhe de pé, sentado, acompanhado ou só.

Pouco depois, o sol surge entre as nuvens. As entradas para as cabinas 1 e 2 do elevador olham o Rossio. Ao fundo, o Teatro Nacional. Do lado oposto, todo um cenário diferente – o laranja dos telhados transporta o olhar até ao Tejo, agitado, à medida que a espontaneidade do lápis percorre cada caderno de forma diferente.

O lápis de Begoñe Vilas estranha aquilo que para os restantes é familiar. Veio de Barcelona, para trabalhar em Portugal ao abrigo de um programa europeu. Sentada ao lado de um amigo, também ele espanhol, observa do cimo do elevador a calçada lisboeta que o sol ilumina. Vem para passar uma tarde diferente, para ter uma experiência que não viu passar pela sua cidade.

Do caderno para a web

Lá em baixo tudo parece pequeno. Um olhar mais atento encontra Eduardo, no meio de dezenas de pessoas. Discreto, encostado à parede de uma das casas que compõem a típica fachada da Baixa, olha para cima e desenha. Talvez tenha descido e se tenha tornado pequeno para captar a grandiosidade do Elevador de Santa Justa. O caderno do artista conta, hoje, a viagem aos 45 metros da torre de ferro fundido com mais de 100 anos de história, concebido pelo engenheiro portuense Raoul Mesnier du Ponsard.

E de viagens se compõe o blogue Urban Sketchers. Apresenta desafios todas as semanas, tendo por base o conceito dos diários gráficos. Os encontros, como o de hoje, arrastam cada vez mais interessados, adultos e crianças. Alfama, Mouraria, Marquês de Pombal e o Metropolitano foram até à data os lugares retratados por um grupo cujo fio condutor é o gozo que traz o desenho. Vânia Vargas, de 29 anos, é participante habitual no blogue e descreve este prazer como o cerne do diário gráfico: “O que realmente importa é o prazer do traço, mesmo que não fique perfeito.”

De volta ao ponto de partida, apenas uma mulher desenha. Fá-lo por gosto, diz ter projectos, blogue próprio, mas “atrasadinho, graças a Deus”. Sentada num banco de pedra, concentra-se nas cabinas verdes e brancas à entrada do Quartel do Carmo. Os participantes regressam, aos poucos, cada um empunhando o seu caderno. Ao lado do quiosque do Largo do Carmo, um homem alto de chapéu preto parece satisfeito. Também Marisa, a mulher dos cabelos encarnados. Espera-os o Largo Camões, talvez daqui a dois meses, para mais um encontro entre os cadernos e a cidade de sempre.

Fonte – Jornal Público

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