Cais do Sodré: o red light district de Lisboa cabe todo numa rua

Aqui fica um excelente relato da noite lisboeta publicado no Diário de Notícias.

O assassino de Martin Luther King, James Earl Grey, passeava-se pelos bares do Cais do Sodré, um mês depois de cometer o crime. Em Maio de 1968, não havia melhor sítio no mundo para passar despercebido, entre milhares de marinheiros que chegavam de todos os portos do mundo e prostitutas que seduziam clientes ao balcão dos bares da Rua Nova de Carvalho.

O Texas, decorado à americana, com uma estrela na parede do fundo e um casco de barco por cima do balcão, era um dos sítios mais concorridos. À entrada, o porteiro Gomes distribuía preservativos da marca Texas a quem saísse com uma prostituta. Aparentemente Grey foi um deles.

Segundo relatos da época de repórteres da revista “Life” e do “New York Times”, o assassino do activista político esteve dez dias em Portugal, pouco tempo antes de ser capturado no aeroporto de Londres, quando tentou fugir para o Canadá. Os jornalistas seguiram os passos de Grey em Lisboa e falaram com a prostituta Maria, com quem Grey passou uma noite por 300 escudos. Maria conheceu-o no Texas e, meses mais tarde, descrevia-o ao “The New York Times” como “um tipo simpático que não tinha muito dinheiro com ele”. Nunca iria adivinhar que era um assassino, mas isso no Cais do Sodré pouco importava.

PROSTITUTAS

“Os bares aqui funcionavam como um elo de dinheiro entre as meninas, os estrangeiros e os chulos”, explica António Costa, de 57 anos, dono da casa de strip Ménage, do outro lado da rua do antigo Texas. O bar que atraía marinheiros americanos deu lugar ao Music Box, uma das discotecas mais in da capital, que abriu as portas há três anos. Entre batalhas de DJ, concertos e música electrónica, a discoteca, por baixo de um arco, atrai uma clientela jovem e fashion e expulsou as prostitutas para uma esquina da Rua Nova de Carvalho. Do Texas apenas restou um cacto de néon, abandonado na parede sombria das traseiras do Music Box.

“Conheço prostitutas que estão cá na rua há 30 anos”, conta António Costa, “há uma que nem é pelo dinheiro – porque sei que recebeu uma herança – é por gosto”. No seu bar garante que não entram. “Isto é apenas uma casa de espectáculos de dança erótica, com sessões de strip de cinco em cinco minutos.” Nas mesas do bar, um cartão com um desenho do ilustrador Manara de uma rapariga sem cuecas de rabo espetado avisa todos os que esperam uma actuação no palco com um varão: “Não toque, não grite, não faça propostas.”

“STREEP”

António também é dono do bar Viking, na mesma rua, onde há duas sessões de striptease por noite, ou “streep” como se lê na parede. “Mas os clientes são diferentes [do Ménage]. A gente antiga ainda lá vai à procura de uma rapariga para se divertir.” Na pista onde se dança música dos anos 80 e 90, uma mulher de cabelo branco e bata pergunta-nos: “O que queres beber, bebé?” O serviço às mesas e à pista de dança é comum na zona. No bar Oslo, duas portas ao lado, Cláudia Menezes, 21 anos, avental azul, começou a servir bebidas aos clientes há um mês. “Não há mal nenhum em trabalhar aqui”, é a primeira coisa que diz. O Cais do Sodré não tem a má fama de antigamente, mas ainda não se livrou do rótulo de zona perigosa e de prostituição.

CLAUSTROFOBIA

Dos tempos dos marinheiros restaram, acima de tudo, os nomes dos bares. “Cada bar tinha o nome de uma cidade para atrair os marinheiros dessa zona”, explica Augusto Carralas, 56 anos, dono do bar Copenhagen, que já se chamou Bremen e já foi uma casa de colchões. “Vim para aqui em 1974 e era uma enchente sempre que paravam barcos de guerra. Agora não se vê ninguém.” Para chamar clientes, Augusto aderiu aos “after-horas”, como diz.

No Tokyo e no Jamaica, o cenário é o oposto: claustrofobia à sexta e ao sábado. “Lembro-me de ter estado na mudança do Jamaica”, conta o realizador João Botelho, habitué dos Cais do Sodré. “Era uma zona de prostituição até ao final dos anos 70, quando o Mário Dias [radialista da TSF] começou a pôr música, desde Doors a Patti Smith. Chamávamos-lhe Mário Noites.” O bar Shangri-lá, que entretanto já encerrou, albergava às terças as “Noites do Rei Lagarto”, promovidas pela editora Assírio & Alvim, com música dos anos 60.

RITUAIS GREGOS E VAMPIROS

Na Rua de São Paulo, no bar Transmission, sempre preparado para uma festa de Halloween e para uma noite de matraquilhos, um grupo de góticos abana a cabeça ao som de metal. “Vêm à procura de vampiros?”, procura Mário, o dono, que tem recebido vários pedidos de entrevistas “com esta moda dos vampiros”. “Aqui não há”, ri-se. Mas se houvesse não havia problema. O Cais do Sodré atrai minorias. Nos anos 80, os marinheiros gregos compravam loiça para partir e dançar em cima dos cacos. “No Bouzoki, na cave do bar Roterdão, tinham de comprar loiça a mais para eles”, conta António Costa.

Fonte – Diário de Notícias

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2 respostas a Cais do Sodré: o red light district de Lisboa cabe todo numa rua

  1. Pingback: Cais do Sodré: o red light district de Lisboa cabe todo numa rua … – prostituta

  2. Ola sou o PM AKORDEON, 
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    Espero que gostem
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