Arco 2010: Afinal, o que é que sabemos de Los Angeles?

Há cidades das quais pensamos que sabemos tudo para acabar por descobrir que não sabemos nada. Por exemplo: Los Angeles, o segundo centro artístico norte-americano, depois de Nova Iorque, e também a segunda maior e mais povoada cidade dos Estados Unidos.

Estamos a falar de mais de mil quilómetros quadrados para uma área metropolitana com 18 milhões de habitantes. Tivemo-la aos pés, vista lá de cima, do Observatório de Griffith Park, no topo de Mount Hollywood – um plano infinito de luz e auto-estradas a desaparecer no horizonte. Depois, descemos e vivemo-la por dentro – se é que é possível viver uma cidade assim por dentro. Estivemos ao sol em Venice Beach com os surfistas e body-builders, visitámos ateliers de artistas em Chinatown, atravessámos o deserto yuppie da Downtown, almoçámos entre as caras conhecidas da Rodeo Drive de Beverly Hills e sobrevivemos ilesos a uma noite de jazz entre gangsters e prostitutas em South Central. Ainda assim, a primeira imagem que nos ocorre vem do cinema: Laura Harring – ou, no caso, Rita – a despenhar-se Mulholland Drive abaixo até aterrar, amnésica e amachucada, no pesadelo de uma cidade cheia de sol e palmeiras mas com monstros bem negros escondidos ao virar de cada esquina.

Los Angeles, pois, uma cidade que parece mais real no cinema do que na vida: afinal, o que é que sabemos dela se quisermos pensar exclusivamente, por exemplo, em artes plásticas? Nada. Ou quase nada. Ocorrem-nos nomes – uma lista de nomes: David Hockney, Raymond Pettibon, Allan Kaprow, Ed Kienholz, Ed Ruscha, John Baldessari, Mike Kelley, Paul McCarthy, James Turrell, Chris Burden, Judy Chicago, Miriam Shapiro, Alan Sekula… Nomes e balizas como as marcadas pela Pop de L.A. do arranque dos anos 1960, do Minimalismo Californiano e movimentos como o Light and Space, já de finais da década, do Conceptualismo e da explosão da Performance Art nos anos 1970… Depois, nos anos 1980, precisamente quando a cidade começa a ser reconhecida como grande centro artístico, a imagem torna-se difusa.

“É natural”, diz-nos Kris Kuramitsu. “Los Angeles é uma cidade estranha e complexa cuja história, ainda por cima, no que toca às artes visuais, está muito pouco trabalhada.”

Primeiro dia na Arco, momento exclusivamente dedicado a visitantes profissionais, com as galerias ainda longe do pequeno pesadelo da abertura ao grande público, corredores transitáveis e arte à vista, sem ser preciso furar muralhas de máquinas fotográficas e famílias inteiras a posar frente a pinturas e esculturas. Com Christopher Miles, Kris Kuramitsu teve a cargo o comissariado da participação especial de Los Angeles na Arco, uma estreia para a feira de arte contemporânea de Madrid que até à edição de 2009 costumava ter um país convidado, em vez de uma cidade (o último foi a Índia, depois de panoramas sobre cenas artísticas como a brasileira, a coreana, a mexicana, a austríaca, a britânica e até, lá mais atrás – em 1998 -, a portuguesa).

“A cidade é um conceito mais contemporâneo e é nas cidades que as coisas acontecem”, dizia-nos há dias Lourdes Férnandez, directora da Arco desde a edição de 2007, depois da retirada, em 2006, de Rosina Gómez-Baeza, directora das duas décadas anteriores. A sucessora de Los Angeles, explicava-nos também, ainda não está escolhida, por isso é em Los Angeles que ficamos. Numa Los Angeles, afinal, sem enormes arestas, relativamente bem comportada e homogénea, dentro da diversidade própria de uma grande metrópole, a primeira nos Estados Unidos que se estima ter neste momento uma população maioritariamente latina, a juntar às comunidades afro-americanas e de origem asiática.

Mantemos presente o que Kris Kuramitsu nos diz antes de começarmos a visita à zona dedicada a esta participação especial: “Um dos aspectos mais interessantes de Los Angeles é que há uma imensa quantidade de espaços alternativos. Não é uma cidade bastante menos cara do que, por exemplo, Nova Iorque e isso permite aos artistas alugar grandes espaços e juntarem-se, mostrarem o seu trabalho informalmente, trabalhar fora do sistema das galerias. É o que é mais único na cidade. Naturalmente, na Arco, havia a restrição imposta pelo facto de se tratar de um acontecimento dedicado a galerias. A cena de galerias é muito forte, mas reduz a perspectiva. Será talvez um instantâneo da cena artística da cidade”.

Um instantâneo, portanto: 17 galerias, no total, concentradas na zona central do Pavilhão 8 do Parque Ferial Juan Carlos I, o mesmo onde estão as portuguesas Filomena Soares (Lisboa) e Mário Sequeira (Braga), duas das apenas três galerias portuguesas – contra as 15 mais habituais – que este ano têm stand na zona dos grandes negócios do Programa Geral da Arco – a Carlos Carvalho (Lisboa) está no Pavilhão 10, com a Fonseca Macedo (Ponta Delgada), que participa na área de stands de formato reduzido Arco 40, face à retirada portuguesa quase em bloco desta edição em ano de crise (ver P2 de ontem).

Paramos à entrada da Regen Projects, uma das galerias de Beverly Hills. Numa das paredes, um guache sobre papel, uma imensa onda azul e, a cavalgá-la, tornado diminuto pela imensidão do mar, um surfista loiro; num canto, uma inscrição remete para “Moby Bick”: “A transformação dele é comparável à provação de Jonah quando desmembrado pela baleia”.

É dos raros trabalhos não monocráticos de Raymond Pettibon, datado de 2009 e de dimensões – um metro e meio por quase três metros – também raras para um artista que habitualmente trabalha pequenos formatos inspirados na BD. É um dos lados da cena artística de Los Angeles, ligada a uma street culture própria, de influência punk, mas virada para o mar, e que, na Arco, se encontra em alguns trabalhos de um artista da mesma geração mas menos conhecido internacionalmente como Russel Crothy (a mesma figura do surfista multiplicada por seis numa belíssima impressão na Shoshana Wayne Gallery, de Santa Mónica). Já Lari Pittman, com dois trabalhos também de grande formato ao lado de Pettibon, mostra outra faceta forte da pintura desta cena artística, ligada às artes gráficas e decorativas, feita da sobreposição de técnicas com vinil, acrílico e aerossol – uma via divergente do mais conhecido conceptualismo de nomes determinantes como John Baldessari.

Talvez por se tratar de artistas cujo trabalho tem estado sujeito a fortes correntes especulativas, a Regen Projects recusa divulgar o valor a que está a comercializar Pettibon e Lari Pittman. Já uma das galerias que representa Baldessari – a Margo Leavin Gallery, também de Berverly Hills (em Portugal, Baldessari é representado pela Cristina Guerra) – não tem problemas com valores: a fotografia de um cacto que o artista tirou em 1999 e cujas folhas coloriu há dois anos – Agave Plant (1999-2008) – está disponível na Arco por apenas 135 mil dólares (96 mil euros), enquanto um díptico também de fotografia trabalhada a acrílico, mas de maiores dimensões e datado dos anos 1980 – mais concretamente de 1987 – está a 600 mil dólares (443 mil euros). “São valores abaixo dos praticados por muitos jovens artistas”, reconhece a galerista. “Faz parte da lógica de uma certa geração.”

Na geração abaixo, na mesma galeria, um artista pouco conhecido na Europa, uma espécie de artista de artistas – Baldessari, dez anos mais velho, é um dos seus fõs incondicionais: William Leavitt (também músico, compositor, encenador…) cuja pintura e fotografia explora como os temas centrais do Light and Space – a luz e o espaço, narrativas em suspenso como pano de fundo.

No fim do ano, o MOCA, Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles, vai dedicar-lhe uma retrospectiva, o que deverá fazer subir o valor de mercado da sua obra. Mas, na Arco, um políptico com sete fotografias de 1973 e intitulado The Lure of Silk (surgiu da pesquisa para o cenário de uma peça de teatro homónima) está a 25 mil dólares (18 mil euros) e a tela Olive Motel, de 1995, a 35 mil (26 mil euros).

Mais nomes conhecidos: Alan Sekula, com a longa série de fotografias Methane for All, na Anthony Grimes, uma habitual da Arco (trabalhos entre os cinco mil e os 12 mil euros), Edward Kienholz na L.A. Louver (aguarelas de 1969 e 1991 a 10 mil euros) e, já entre os mais jovens artistas da representação de Los Angeles, o colectivo My Barbarian (fotografias a dois mil euros), que hoje faz uma das suas performances na Arco.

Sexta-feira é o primeiro dia totalmente aberto ao grande público, quando os grandes negócios a fazer na feira já estarão se não fechados, pelo menos acordados. Quando se ficará também com uma ideia sobre os resultados comerciais desta edição de 2010, entalada entre o descalabro dos mercados de 2009 e os indícios de retoma dos últimos dois meses.

Fonte – Jornal Público

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