Lojas que guardam estórias

Hoje no Jornal de Notícias:

Espaços comerciais antigos da cidade mantêm a traça original e um atendimento mais personalizado. Casas Crocodilo e Granado são negócios que continuam nas mãos da mesma família e Casa Oriental atrai clientes com a fachada colorida e o bacalhau pendurado.

Um crocodilo embalsamado suspenso há mais de meio século numa casa de solas e cabedais, uma loja centenária de ferramentas que exportava para África antes da Guerra Colonial e outra especializada na venda do bacalhau, que nos remete para o Oriente. Todas elas guardam estórias, dos donos, dos clientes e da Baixa do Porto. E um jeito mais familiar de atender o cliente.

A Casa Granado, na Rua de Cedofeita, é uma das três dezenas de lojas elencadas no livro do arquitecto Luís Aguiar Branco sobre as lojas tradicionais da cidade, que será apresentado no dia 4 do próximo mês. O negócio foi passando de uma geração para outra, sempre na mesma família de Figueira de Castelo Rodrigo, distrito da Guarda. Pai, mõe e filho partilham os dois balcões da loja.

Antigos clientes fazem visita

O negócio “já não é aquilo que era, nem por sombra”, explica Maria Alcina Patana, que recorda o tempo em que exportavam para o continente africano e eram muitos os carpinteiros que ali compravam. Hoje, ainda chegam clientes “de longe”, seja da Guarda, de Viseu ou da Régua. Aproveitam sempre a deslocação ao Porto para fazer uma visita e levar “alguma coisinha”.

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Ali, o atendimento é mais personalizado. Maria Alcina explica que algo parecido com um difusor de chá industrial é, na verdade, um cozedor a vapor. Na loja, vai dando uma ajuda desde que casou com Joaquim. O actual proprietário ajudou o tio desde os 12 anos. E ficou com o negócio.

O filho de Joaquim Patana, Nuno Jorge, promete manter a tradição. É sócio dos pais há sete anos, apesar de ser formado em fiscalização de obras. Quando era pequeno, ia para a loja “misturar os pregos” e mudar o sítio às coisas.

O cliente mais antigo, conta o pai, tem 86 anos e é dono de uma oficina no Porto. Mas a clientela “foi desaparecendo”, também por culpa das grandes superfícies.

Enquanto na Casa Granado se recorda a altura em que levavam tudo ao domicílio, na Casa Oriental também se recua à época em que transportavam os caixotes às costas nas entregas.

Bacalhau é a especialidade

Também nesta loja procuraram manter a traça original, enquanto o colorido chama a atenção naquela zona turística, junto à Torre dos Clérigos. Mas é o bacalhau seco pendurado na fachada que atrai os clientes de “muitos cantos do país” e até de Espanha ou Itália. “Alguns são de passagem, outros vêm de propósito por causa do bacalhau”, conta José Maria Rocha, que ficou com o negócio há 25 anos. Fora do período natalício, vende mais legumes e frutas, que ocupam o passeio e são uma aposta mais recente.

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Se entrar na Casa Oriental é tarefa complicada para quem se cruza com outro cliente, na Casa Crocodilo qualquer um depara, de imediato, com o exemplar desta espécie, de cinco metros, pendurado no tecto. O negócio está na mesma família há 60 anos. Há mais de 50, quando mudou para a Rua de Cimo de Vila, o pai de Guilherme Coutinho, actual proprietário, comprou a uma moradora na Avenida da Boavista o crocodilo que esta trouxera do Brasil. Ficou por “300 escudos”, recorda Guilherme, que ajudou o pai desde os 11 anos.

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