Ao balneário público, até já há quem chegue de Subaru – Jornal i

O Jornal i publica hoje uma óptima reportagem sobre a utilização dos balneários públicos em Alcântara.

Os utilizadores do Balneário de Alcântara quase duplicaram em dois anos. Trinta a 50 chegam de carro. “O esquentador avariou”, é a desculpa.

Ainda nem passaram duas horas e Maria Odete já está outra vez debaixo do chuveiro. A água escalda e Maria Odete é uma figura de corpo cheio a mirrar-se com o vapor. Esfrega com tanta força o sabão na pele que parece rompê-la. “É para ver se acabo de vez com estas alergias”, diz. Veste meias sobre meias, calças, camisa, camisola sobre camisola, casaco, luvas, gorro. Quem olha para ela hoje, num vai-e-vem pelo balneário público de Alcântara, à procura de mil roupas para trocar as voltas ao frio, voz esganiçada, como se as lágrimas lhe embargassem a garganta, custa a acreditar que há três anos estava a tomar banho no seu apartamento de Algés, com o carro estacionado à porta, à espera de a levar para o emprego de 28 anos na CP. Mas isso era antes de largar tudo por um homem e por Cabo Verde, de vender a casa de Algés e partir sem dizer adeus à família do Fundão e, três anos depois, ver uma casa em chamas em Cabo Verde, no calor da estação seca.

O regresso a Portugal trouxe a Maria Odete o desconforto que não conhecia: o carro foi penhorado, a casa há muito que foi vendida, uns tendões andam soltos no ombro a ponto de mal conseguir levantar os braços. “Não posso levantar mais do que isto, senão dá-me uma dor que não me aguento”, exemplifica. Dorme em escadas para fugir ao relento, estende cuecas num estendal abandonado junto a um café e é gozada, aquece-se duas ou três vezes por dia na água a escaldar do balneário. Com uma desculpa: curar as alergias que só ela vê, antes de se besuntar com uma pomada tão gordurosa que o corpo não tarda nada reclama água outra vez.

Os vigilantes Rosa, vigilante do balneário há 16 anos, frequentadora desde que se conhece, depressa se apaixonou por uma profissão a que a longevidade ditou uma sentença de coveiro. “Já vi tanta gente morrer”, exclama, com a naturalidade de quem tem tendência para transformar em coisas simples os cenários mais duros. Quando a senhora A. ou o senhor X. deixam de ir ao balneário, Rosa já sabe de cor os dois motivos mais prováveis para a ausência: ou a morte, ou a prisão. Quando a rapariga de 16 anos que o namorado “da rua” foi buscar a Cascais não pôs os pés no balneário durante dois dias, Rosa logo agourou: “Aconteceu alguma coisa.” Tinha morrido no incêndio que reduziu a cinzas uma casa abandonada na Avenida 24 de Julho, no Verão passado. Outro, que tinha o cuidado de não emprestar a gilete porque dizia ter a “sidalina”, morrera de overdose, “seco em palhas”. Outros tantos ali foram presos, depois de os polícias andarem a rondar, um olho na rua, outro naqueles chuveiros.

Dezasseis anos são muito tempo. Tempo até para Rosa arregaçar as mangas para lavar corpos, cortar cabelos e unhas, e até catar piolhos. “Vinha aí uma velhota a quem eu dava banho que passava a vida a dar puns dentro de água, mas agia como se nada fosse.”

Rosa, 57 anos, viúva, três filhas e dez netos, tem uma energia que cansa. Descarrega avalanches de palavras num minuto, salta de um lado para o outro com a velocidade de um coelho. Bem disposta e repontona, Rosa aprendeu a conhecer todas as manhas dos frequentadores do balneário – “É um bocado de sabão e não quatro!”, “De quantas camisas precisas tu?, “Essa roupa toda é para ti ou para venderes na feira?”

Quando deixou de embrulhar bombons na Regina e na Aliança e começou a trabalhar no balneário nos anos 90, aquele era ainda só um sítio para tomar banho. Até que começaram a oferecer roupa na Junta de Freguesia e depressa cresceram, à velocidade de cogumelos, montanhas de camisolas, calças e casacos em duas salas. Hoje, a roupa chega ao tecto e as máquinas de lavar e secar roupa são electrodomésticos que não têm sossego no Balneário de Alcântara. Quem lá vai, se aparece de roupa tão suja e gasta que mais parece podre, é imediatamente convidado a deitá-la no caixote do lixo e a escolher outra. Se preferir, pode deixar a sua a lavar. Da próxima vez, terá lá um saco com o seu nome. Roupa lavada, seca, passada a ferro e pronta a levar.

A Junta de Freguesia de Alcântara, que gere o espaço, registou uma média de 500 utilizadores por semana em 2009. Mais 200 do que em 2007. Para Rosa, os últimos anos viram surgir um novo fenómeno, que se reflectiu nos banhos do Balneário. Além dos toxicodependentes e dos sem-abrigo, dos moradores das zonas antigas de Alcântara e do Alto de Santo Amaro ainda sem casa-de-banho, dos que se habituou a traçar um perfil e uma biografia durante 16 anos, “tem aparecido muita gente nova e bem parecida”. Rosa e Carlos – que ali trabalha há apenas dois meses – arriscam um número: entre 30 a 50 pessoas chegam ali semanalmente, de carro. Como aquele que entra de fato inteiro e pasta na mão ou o que sai disparado num Subaru, mas baixam a cabeça e não aceitam falar. “Aparecem muito envergonhados, a perguntar se podem tomar banho e se não se paga realmente nada”, conta Rosa. “A desculpa que se repete é: ‘o esquentador está avariado’. Sabemos que é mentira”, confirma Carlos.

As novas vidas vêem-se no chuveiro Às 8 horas, o balneário já cheira a uma mistura de sabão, humidade, vapor de água e cheiro de pele. Pedro Adelino, angolano de 59 anos, está em Portugal há 19 anos mas só há seis meses começou a tomar banho no balneário. A data coincidiu com o dia em que se tornou sem-abrigo em Lisboa. A empresa de construção civil para a qual trabalhava em Castelo Branco deixara até de pagar a metade do ordenado que lhe tinha sido prometida.

Isabel Gomes, 53 anos, ainda é do tempo em que o banho se resumia a um alguidar. Já não consegue contar há quantos anos frequenta o balneário. “Lembro-me de já ser crescida e de a minha mõe vir aqui à minha procura, a ralhar comigo.” Moradora no Bairro do Alvito, vê uma casa degradada a desfazer-se por cima da sua, ratazanas a passar-lhe nos pés. Trabalhou 22 anos na mesma empresa até ficar desempregada em 2009: “Ter casa-de-banho tenho, mas é tão pequena e velha, e o dinheiro tão pouco, que aqui é melhor.”

Célia tem 48 anos e um corpo mirrado de criança que parece prestes a partir-se, cara oval, voz mandriona. Há seis meses, era secretária em Portimão. “Tinha casa, dinheiro, conforto, tudo. Olhava para os sem-abrigo na TV e nunca pensei que me fosse acontecer a mim.” Mal sai do balneário, prepara-se para arrumar carros durante dez horas. Não quer dar o apelido nem o rosto, porque não quer que as filhas de 3 e 13 anos, a quem continua a mandar dinheiro todos os meses pelo correio, saibam que dorme na rua. Não quer que essa seja a “próxima notícia sobre a mõe”. Ao mesmo tempo que esconde as mãos magras dentro dos bolsos do casaco, faz tudo para esconder um indiscreto olho roxo atrás de uns óculos ainda menos discretos.

Fonte – Jornal i

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