Eles vivem no lado errado da cidade

No JN de hoje é possível espreitar a outra metade do Porto: Eles vivem no lado errado da cidade (por Inês Schreck).

Na zona oriental do Porto, ainda há quem durma em barracos, faça as necessidades no balde e tome banho em bacias. Uns pedem para comer, outros suplicam por casa. Miséria e ambições de famílias que moram para lá da Circunvalação.

Aporta de chapa, grafitada, está sempre aberta. “Tanto faz, o frio entra por todo o lado”. Cândida Moreira, ou Candidinha como lhe chamam, está ao fundo do corredor a lavar cenouras com a água do garrafão que encheu no tanque. Junta-as ao grão-de-bico rafado que vai cozendo ao lume. Apesar do sol lá fora, estaria às escuras, não fossem as frestas enormes que separam as telhas do tijolo das paredes. O barraco, onde vive há um par de anos, era o abrigo das galinhas. A sua casa ruiu e ocupou-o. É soturno, gelado, miserável. Como são as vidas de muitos que tiveram a pouca sorte de nascer do lado errado da cidade, na zona oriental do Porto.

No final de 2007, havia 232 ilhas só naquela fatia de cidade, ocupada pela freguesia de Campanhõ. O pior fica para lá da Circunvalação, em locais remotos como Azevedo de Campanhõ e Pêgo Negro. Por ali, a água não chega a muitas habitações, a luz ilumina poucas ruas e de saneamento nem se fala. Praticamente não há serviços, faltam equipamentos sociais. A instalação de uma simples caixa multibanco já foi pedida há anos, conta o presidente da Junta de Freguesia, Fernando Amaral.

Quem lá vive tem de puxar pela cabeça para encontrar um aspecto positivo. “Depois de muito pensarem os jovens do Lagarteiro dizem: ouvem-se os golos no estádio do Dragão”, conta José António Pinto, assistente social da Junta. Daquele lado de Campanhõ há agora uma Pousada de Portugal (no Palácio do Freixo) e a construção do Parque Oriental começa a desenhar-se. Mas sobram problemas, sobretudo ao nível de habitação.

Candidinha vive literalmente no meio da sucata. No terreno que ladeia o barraco, na Rua da Granja, onde dorme com o marido, Elísio, o filho, Mário, e um dos netos, há máquinas de lavar desmontadas, fogões antigos, pneus sem jantes, motores esventrados, ferramentas espalhadas. O mais “valioso” guardam dentro de casa, em sacos do lixo para depois venderem. Mário conduz, todas as noites, estrada fora, atrás de electrodomésticos abandonados. “Vou até ao Porto e venho. Trago sempre qualquer coisa”, refere o filho de Candidinha.

A expressão “vou até ao Porto” diz bem da distância psicológica a que aquela gente se encontra da cidade. Uma estrada apenas separa-os de tudo. Do bulício urbano, do desenvolvimento, das oportunidades. Ficaram ali, entalados entre a VCI e Gondomar, esquecidos.

As assimetrias entre as zonas Oriental e Ocidental são enormes e a CDU quer debater o tema com os deputados da Assembleia Municipal. A reunião extraordinária sobre “o atraso estrutural da zona Oriental do Porto” deve realizar-se no iní­cio do ano.

O sonho de Candidinha era ter uma “casinha” para ter uma ceia de Natal em condições. Aos 73 anos, dorme numa cama minúscula com o marido, encostada a uma janela que deixa entrar frio e chuva. Cobre-se com cinco ou seis cobertores de lõ, encolhe-se e espera pelo calor da manhõ. Lava-se numa bacia e faz as necessidades num balde. “Queria ir para o Lagarteiro para perto dos meus netos”, desabafa. O pedido de habitação que deu entrada na Domus Social está em apreciação há mais de um ano.

Sonhar não é proibido e Candidinha já faz planos para depois da casa nova. “Uns dentinhos”, ri-se, lembrando os anos da juventude, quando lhe diziam que “era mulher para pôr os homens de cabeça à roda”. “E depois compro umas pestanas postiças, ponho-lhes rimel e fico ainda mais bonita”, desfia, satisfeita por ter atenção. É pequenina, tem o cabelo curto e desalinhado, as mãos calejadas e o rosto marcado pela vida. O marido, Elísio, 68 anos, homem de poucas palavras, é tão magro como os cões que cirandam por ali .

Álvaro Lopes vive da caridade. Uma vez por semana vai à capela buscar uma saca de comida. Nos outros dias forra o estômago na despensa da irmõ. Vai a pé, de Azevedo de Campanhõ até à zona de Bessa Leite, na zona Ocidental do Porto. Quase duas horas para cada lado, “para poupar na senha do autocarro”.

Álvaro mora numa ilha, no número 200 da Rua da Senhora da Hora, em Azevedo de Campanhõ, com outras 16 famílias. O tecto do quarto onde dormia desabou “há coisa de um mês”. Ficou o candeeiro, pendurado quase por milagre, e uma desafogada vista para o céu. A ruína forçou-o a mudar-se para a sala, espaço que partilha com uma amiga que tirou da “vida”. Salvou-a dos “maus caminhos”, mas não do vício do álcool. “Bebe sete litros de vinho por dia”, conta, afagando a barba rala que lhe cobre a cara. A dependência está à vista. Sobre a mesinha de cabeceira da companheira há um pacote de vinho de mesa barato e vários medicamentos espalhados.

Álvaro nasceu há 52 anos naquela ilha, no meio de mais seis irmãos. Casou, partiu, divorciou-se e voltou. “Levei um tiro psicológico”, confessa. Depois disso, teve namoradas, “várias”, mas nunca mais quis casar. O quarto que agora ocupa também não dá para mais ninguém. Nem o subsídio de desemprego, uns magros 285 euros por mês que acabam em Março do próximo ano.

Apesar das condições miseráveis do espaço que habita, Álvaro “gostava de ficar por ali”. “Precisava de umas obras, mas não tenho dinheiro. E só pago cinco euros de renda”, admite. Ainda não sabe bem o que fazer à vida – não fez pedido de habitação à Domus Social – sente é que “assim não dá para continuar”. Está cansado de tomar banho numa bacia, de fazer as necessidades fora de casa, de viver “num mundo que só serve para alguns”.

A sua “arte” é ser pintor da construção civil, mas é o diploma de um curso de formação profissional de auxiliar de idosos que exibe orgulhoso. “Tenho isto, mas ninguém me dá emprego”, encolhe os ombros e arruma o papel amarelecido pelo tempo. Em casa de Aldina Carvalho, o problema é a falta de espaço. Paga 225 euros por uma habitação minúscula no número 499 da Rua de Azevedo. Não está a cair, apesar das gotículas de humidade no tecto, mas é demasiado pequena para os seus cinco filhos.

O mais velho, de 23 anos, está detido em Custóias, para angústia da mõe. Os outros vêm por ali abaixo com 18, 14, 11 e 8 anos, e ” estão todos a estudar”, garante. Aldina é viúva e recebe 600 euros de Rendimento Social de Inserção. O seu processo está em fase de análise na Domus Social. Ao todo, só da freguesia de Campanhõ, haverá uns 300 pedidos para habitação social.

Consultar também: Radiografia de uma freguesia periférica onde sobram problemas

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