No Beco do Chão Salgado lembrando o Duque de Aveiro e os Távoras

Na passada semana dirigi-me a um dos meus locais favoritos da História de Portugal, mas que poucos conhecem e infelizmente está afastado dos manuais escolares de História. A «Estória» que está associada ao local vem explanada nos livros escolares, mas a relação entre os acontecimentos históricos e o local (no presente) passa completamente ao lado dos jovens estudantes.

A 3 de Setembro de 1958 o rei português, D. José I, sofre uma tentativa de assassinato mas sobrevive apenas com ferimentos ligeiros. Daqui surge o célebre «Processo dos Távora» em que foram mortos quase todos os elementos desta família. Para além disso os títulos de Duque de Aveiro e Marquês de Távora foram extintos para sempre. A sentença ainda tinha como consequências o arresto de todos os bens da família e que todas as casas habitáveis dos Távora fossem completamente destruídas! É neste processo que o fantástico palácio do Duque de Aveiro, maior e mais belo que o do próprio rei, plantado no local mais nobre de Lisboa em Belém também é destruído. Aqui surge mais um episódio de todo este processo macabro. O palácio é totalmente arrasado, queimado e salgado! Isto para que mais nenhuma viva alma nascesse ali. Para as pessoas nunca mais esquecessem esse acto hediondo (o da tentativa de assassinato do rei) foi colocado no terreno onde estava o palácio do Duque de Aveiro um pilar de pedra com 5 metros de altura e na ponta 5 anéis também de pedra que representam o número de elementos condenados. Na base foi colocada a seguinte frase:

Aqui foram arrasadas e salgadas as casas de José Mascarenhas, exautorado das honras de Duque de Aveiro e outras condemnado por sentença proferida na Suprema Juncta de Inconfidência em 12 de Janeiro de 1759. Justiçado como um dos chefes do bárbaro e execrando desacato que na noite de 3 de Setembro de 1758 se havia cometido contra a real e sagrada pessoa de D. José I. Neste terreno infâme se não poderá edificar em tempo algum.

Após este imbróglio processual o terreno foi entregue à Câmara de Belém e esteve abandonado até ao Reinado de D. Maria I. Durante esse tempo a Câmara foi passando licenças de construção sem qualquer critério e não tendo qualquer atenção à coluna que ali estava. Para quem conhece bem a cidade de Lisboa o marco está situada no Beco do Chão Salgado. Para quem conhece menos bem, a coluna está por trás da célebre pastelaria de pastéis de Belém e da cafetaria Starbucks.

A forma como aquele bairro cresceu de forma desorganizada em torno do marco histórico demonstra o quanto tiveram esquecidas as políticas para a Cidade e para o Urbanismo. Vejam a Foto 1 para perceber o que significa a expressão «em torno do marco» de forma literal.

Outro das situações que me intrigou bastante foi o estado de degradação em que o Beco do Chão Salgado está. Numa zona nobre da cidade em que circulam centenas de turistas diariamente, aquele espaço, completamente ao abandono, não constitui uma boa imagem de uma cidade histórica e cosmopolita. Por isso, o cenário que vemos na Foto 2 é corrente e recorrente.

Do mal o menos: ainda bem que a história do Duque de Aveiro e do seu Palácio é pouco conhecida porque assim os turistas não desviam o olhar dos pastéis de Belém para ver o Beco do Chão Salgado.

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6 respostas a No Beco do Chão Salgado lembrando o Duque de Aveiro e os Távoras

  1. Miguel Brito diz:

    Não entendo porque é que os turistas são um mal para o Beco do Chão Salgado. Parece-me, outro sim, que o mal são os locais que fizeram os grafitti da foto 1 e deixaram as imundices da foto 2. Ou será que o autor do texto não é também um turista quando está deslocado do seu local de residência?

    • Tiago Santos diz:

      Caro Miguel Brito,

      Certamente não leu com toda a atenção o artigo. O que refiro é que a política urbanística da cidade não prestou o devido respeito pelo lugar e que se o fizesse, aquele local tornar-se-ia ainda mais atrativo para as centenas de turistas que passam por aquele espaço diariamente. Como defensor da preservação e divulgação da História e do património Material e Imaterial consideraria excelente que aquele local passasse a fazer parte dos circuitos turísticos estando bem iluminado e principalmente limpo para o visitante/turista/morador/caminhante/habitante tirasse o máximo partido do espaço púbico. Como espaço público essa obrigação cabe aos agentes autárquicos e à sociedade civil.
      Jamais considerei os turistas “um mal”, como diz, para o Beco do Chão Salgado. Bem pelo contrário!

  2. Antonio carlos torres cravo diz:

    Estive em Lisboa em setembro de 2012, fiquei encantado com a sua cidade… a história realmente, não a consideram importante, já que muitos locais ditos: históricos, mas, onde não passa o padre- estão ao Deus dará.

  3. Excelente post.
    Por favor corriga a data do atentado.

  4. Em “Perfil do Marquez de Pombal” , Camilo Castelo Branco relata a cruel execução de Dona Leonor de uma forma que somente um Camilo seria capaz de fazer. Veja na página 15 do exemplar no endereço abaixo. Muito obrigado pelo blog. Lisboa, Lisboa, de grandes épocas. Cuidem dela.

    http://archive.org/stream/perfildomarqusd00brangoog#page/n37/mode/2up.

  5. sergio correa amaro diz:

    Tiago,corrija uma data bem no começo do post de 1958 para 1758…irei lá ver pessoalmente o Beco estes dias, pois sou brasileiro

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