Os Parques Temáticos Históricos como preservadores do Património Imaterial

Artigo criado com a colaboração de Anabela Pinho da Sociedade de Turismo de Santa Maria da Feira.

Autor: Tiago Santos

Parque Temático Histórico – O Conceito

O nascimento dos parques temáticos efectuou-se nos Estados Unidos da América no fim dos anos 50/iní­cios dos anos 60, com o aparecimento do primeiro parque da saga “Disneyland” em 1955. Os 30 anos seguintes foram de crescimento rápido de parques temáticos nos Estados Unidos da América e o sector atingiu a maturidade nos anos 80. Relativamente ao continente europeu e asiático a indústria de parques temáticos apenas iniciaram a fase de explosão a partir de 1995 apesar do primeiro parque europeu ter sido criado em 1952, o “Efeling”, na Holanda. (PINHO e LEMOS, 2006)
Dados da Economics Research Association revelam que em 1990 existiam cerca de 225 parques em todo o mundo e em 2000 o número era já de 340. Neste período foi o continente asiático que verificou um maior crescimento. De 60 parques passaram para 120 e é o continente que terá um crescimento mais acentuado nos próximos anos.
Quando em 1955, Walt Disney, inaugurou o seu primeiro parque de diversões Disneyland na Califórnia, sabia que estava a criar um espaço novo e com um imenso potencial económico. Os Estados Unidos da América e o mundo ainda estavam atordoados com uma longa e sangrenta guerra e os movimentos pelo prazer e lazer tinham novo impulso. Movimentos paralelos como o Rock and Rool, a emancipação feminina, a moda, a corrida espacial e a televisão reflectem a adrenalina desta década. Walt Disney procura conciliar estes Estados de Espírito com uma nova vaga económica que se expande. Para o criador, a Disneyland era um espaço onde “as gerações dos mais velhos poderão reencontrar a nostalgia dos dias passados, e os mais novos poderão saborear os desafios do futuro. Aí, existirá para todos as possibilidades de compreender as maravilhas da natureza e da humanidade” (Walt Disney in, ASHTON, 1999). Os parques temáticos têm essa capacidade de construir um ambiente imaginário através do uso de uma temática específica. Os parques temáticos permitem uma fuga da rotina e um regresso ao mundo imaginário ou histórico e oferecem às pessoas “a oportunidade de retornar a um iconicismo eclético, a uma clareza formal e, sobretudo, à narrativa da vida em sociedade, marcando o retorno a uma posição fortemente contrária aos dogmas anti-representacionais cíclicos governados pelos modernismo actuais” (SOJA, 1996 in ASHTON, 1999).
Os parques temáticos, como já foi escrito, inserem-se numa lógica consumista que atingiu o seu auge entre finais do século XX e iní­cios do século XXI. Por isso, não é de estranhar que a partir dos anos 90 do século passado os parques tenham uma predisposição turística com a oferta de serviços apostados no consumo. Actualmente, os Parques Temáticos identificam-se como um produto de turismo cultural, que relaciona três grandes dimensões, que são consideradas pelo autor Ashworth (1995) como importantes formas de relacionamento entre os conceitos “turismo” e “cultura”: a arte, que incorpora o significado original da cultura e que evoca a capacidade de uma elite erudita e sensível compreender e apreciar as grandes obras artísticas e civilizacionais (espectáculos de musica, teatro, ópera, dança, museus, galerias de arte, entre outros); o património monumental, enquanto ideia de herança transferida de uma geração para outra, da tradição cultural de uma sociedade (evidencia-se, por um lado, pelos conjuntos de edifícios preservados e, por outro lado, uma associação de lugares com acontecimentos históricos e personalidades); “turismo num lugar específico”, em que a atracção turística é entendida como o lugar tomado no seu todo, na sua totalidade, ao reconhecimento das particularidades, das expressões culturais de uma comunidade.
Evidenciando a forte dimensão do “turismo cultural”, o mesmo autor fala do fenómeno de mercadorização e turisficação da cultura que conduziu à criação de indústrias da cultura / património, a quem cabe um papel activo na transformação dos recursos histórico-patrimoniais em atracções ou produtos turísticos. Estas indústrias da cultura/património devem funcionar sob princípios de sustentabilidade, procurando estabelecer um sistema integrado entre recursos culturais, comunidades locais e turistas.
Em termos históricos não existe consenso quanto às origens dos parques temáticos. Miodrag Mitrasinovic na sua tese analisa estes espaços como “uma tipologia arquitectónica contemporânea, operando numa moldura auto-criada e auto-contida num micricosmo mitológico” (ASHTON, 1999). A autora que sita Mitrasinovic admite outra possibilidade. Para ela, “as raízes históricas dos parques temáticos remontam à Europa medieval (1400-1500), quando os jardins meticulosamente trabalhados começaram a aparecer nos arredores das grandes cidades. Estes jardins foram os verdadeiros precursores dos parques temáticos contemporâneos. Embora sem a denominação que hoje utilizamos, apresentavam a oferta de entretenimento, fogos de artifício, danças públicas, músicas, e jogos como dama e xadrez. Os chamados jardins do prazer (Jardins du Plaisir) permaneceram populares até meados do século XVIII, quando distúrbios políticos importantes (Revolução Francesa) causaram o fecho da maior parte destes parques” (ASHTON, 1999). Actualmente ainda existe um desses jardins em Bakken no norte de Copenhaga que foi inaugurado em 1583.
Através de uma deambulação histórica consideramos que a génese dos parques temáticos estará na Grécia Clássica e no Império Romano. Na Grécia Antiga existia a noção de centro da polis. Esse espaço era o local de reunião dos cidadãos. Ainda na Grécia, podemos considerar os Jogos Olímpicos como expoente máximo da cultura. Inicialmente o evento tinha como objectivo o da celebração dos mortos e mais tarde a exacerbação desportiva e cultural. A festa, a música, o entretenimento, os jogos e o fogo estavam já presentes nos Jogos Olímpicos. Contudo, durante o período de glória romano, estas demonstrações culturais vão ser levadas ao esplendor. Por toda a Europa romanizada existiam teatros, anfiteatros e/ou arenas de circo onde se realizavam combates entre gladiadores, peças de teatro, representações de grandes batalhas, caçadas ou corridas. O maior de todos estes edifícios era o Coliseu de Roma onde diariamente existiam eventos culturais para todos os públicos. Não será este um parque temático? O Coliseu de Roma, em conjunto com os diversos monumentos já citados espalhados pela Europa, compunha uma rede de parques temáticos. Obviamente existiam infra-estruturas de todos os tamanhos tal como hoje existem parques temáticos de várias dimensões. Todos os atributos que Mary Ashton considera fundamentais para ser considerado parque temático estavam presentes nos festins romanos mencionados.
Por esses motivos, consideramos que foram os Gregos e os Romanos a iniciarem o caminho triunfante dos parques temáticos.
Objectos de estudo neste ensaio, os parques temáticos históricos permitem que determinado património imaterial possa ser preservado através de diversas actividades. Os parques temáticos históricos procuram preservar e divulgar “práticas, representações, expressões, conhecimentos e habilidades – assim como instrumentos, objectos, artefactos e espaços culturais associados a isso – que comunidades, grupos e, em alguns casos, indivíduos reconhecem como parte do seu património cultural” (SIMÃO, 2004). Esta definição de património imaterial surgiu na 25ª Conferência Geral da UNESCO a 15 de Novembro de 1989. Para além disso, o património imaterial é algo “intangível, transmitido de geração em geração” (SIMÃO, 2004).
Obviamente o património imaterial é indissociável da História e por isso, a história de determinado local num determinado tempo é a característica mais usual que os parques temáticos históricos recriam. Por isso, a maioria dos parques desta tipologia que existem recriam esta especificidade. Como já foi exposto anteriormente, a partir da década de 90 são muitos os parques temáticos que aproveitarão a componente histórica para torná-lo num parque de diversões. Iremos explorar esse aspecto quando fizermos referência aos parques internacionais.

Análise dos Parques Temáticos em Portugal

Em Portugal o mercado dos parques temáticos é dicotómico. Por um lado existe uma quantidade interessante de parques temáticos (principalmente os de carácter natural) mas nenhum deles tem uma amplitude turística gigante.
No caso específico português não existem este género de parques apesar de nos últimos anos muitos investimentos estarem previstos. Iremos fazer referência a um deles – Galaxy Park – existindo outros como o Sea Life no Porto ou um Parque de Diversões que irá ser construído no lugar da Bracalâdia em Penafiel.

Numa pesquisa efectuada conseguimos descortinar 35 parques temáticos em Portugal. Os critérios para a catalogação foram definidos da seguinte forma: para serem considerados parques temáticos os espaços teriam de ter uma componente lúdica, horário definido, entradas (pagas ou gratuitas) definidas e que determinada temática seja recriada e retratada. Para os parques históricos definimos que pertenceriam a esta tipologia parques que retratam a História de determinada região, personagens, espaços, datas e acontecimentos. ; para os de Fantasia e Aventura – aqueles que apostam em actividades radicais e que provocam emoções de muita adrenalina; para os de Carácter Natural – aqueles em que a natureza está como elemento central recriando o mundo animal e/ou vegetal; para os de Ciência e Tecnologia – aqueles que apostam nas novas tecnologias e permitem ao visitante uma visão detalhada sobre a Ciência.
Os parques com carácter Natural são os de maior impacto e têm uma projecção transversal. Para além disso assistimos a uma tentativa, principalmente impulsionada pelos autarcas, de um regresso à natureza e às cidades-jardim. Por esse motivo, existem 25 parques dessa tipologia em Portugal. De seguida temos os parques temáticos de Ciência e Tecnologia com 8 existentes em Portugal. A maioria está relacionada com o da descoberta do desconhecimento ou dos elementos naturais. Os parques de Fantasia e Aventura são aqueles que têm uma maior vertente lúdica e economicista. Existem 7 em Portugal estando situados em áreas turisticamente influentes. Por último temos os parques temáticos históricos que são apenas 4 em Portugal, apesar do passado histórico nacional e de determos um considerável património imaterial.
A maioria dos parques temáticos situam-se no Algarve. Este facto não é de estranhar já que é a região do país com maior Índice turístico. Pela negativa temos a região do Alentejo e dos Açores sem parques temáticos.

Os Parques Temáticos Históricos Portugueses

Como referimos anteriormente em Portugal existem apenas 4 parques temáticos históricos: O Portugal dos Pequenitos; a Fábrica do Inglês; o Parque Mineiro Cova dos Mouros; Parque Temático da Madeira. Nenhum deles tem características totalmente históricas. Todos eles são transversais a outras tipologias. Mas isso também é uma característica dos parques temáticos históricos que tem o património imaterial na sua génese.
O Portugal dos Pequenitos foi construído em 1940 em Coimbra com projecto de Bissaya Barreto. Este parque, concebido no arranque do Estado Novo, emancipa a história patrimonial e imaterial portuguesa em construções numa escala pequena. O parque está dividido em três áreas. A primeira é relativa às casas senhoriais portuguesas a segunda área evoca os monumentos nacionais. A terceira área recria etnograficamente e monumentalmente o império português ao longo dos séculos.
Institucionalmente foi incutido que este era um local de visita obrigatória para as crianças em período de ensino. O Portugal dos Pequenitos juntamente com o Castelo de Guimarões e Conimbriga seria ponto de paragem obrigatório para todos os portugueses.
A fábrica do Inglês situa-se em Silves e está implantado numa antiga fábrica de cortiça do século XIX. Neste espaço, para além dos serviços de animação e de restauração têm um museu da cortiça, um centro de documentação e um jardim histórico. São recriados os momentos no processo de fabrico da cortiça durante a visita desde 1997.
O Parque Mineiro Cova dos Mouros recria a actividade mineira ao longo dos séculos. Situado numa antiga mina, este parque oferece um leque variado de actividades desde o festejo de um aniversário a uma garimpagem.
O parque temático da Madeira situa-se em Santana, na ilha da Madeira decida-se à história, arqueologia e tradição do arquipélago. Dividido por áreas temáticas os visitantes podem descobrir a história da descoberta das ilhas e/ou o património imaterial da Madeira como o vinho, o açúcar, os tradicionais carros de bois e o descobrimento do arquipélago.
Em fase de concepção encontram-se, teoricamente, dois projectos de parques temáticos históricos com uma amplitude turística. O primeiro é referente a um parque de diversões a ser inaugurado ainda este ano em Penafiel no local onde existiu a Bracalândia. Este parque terá seis áreas temáticas inclusive uma referente à época medieval de Penafiel. Contundo, no último ano não existiram notícias sobre este parque.
O outro projecto que é conhecido situa-se em Vila Nova da Barquinha e chamar-se-á Galaxy Park. Segundo o projecto (GALAXY PARK – Estudo de Impacto Ambiental. Lisboa: 2002.) o parque terá cinco áreas temáticas:
– Mitos e Lendas (orientada para as crianças, com edifícios divertidos, construídos com imaginação e muita fantasia);
– Terra e Mar (é uma homenagem às descobertas marítimas dos Portugueses. A intenção é fazer que o visitante experimente a sensação de que está na China, na ͍ndia, em África ou na América do Sul);
– Terra-mãe (os edifícios são baseados na arquitectura rural portuguesa e as atracções são alusivas a aspectos da vida rural);
– Portugal Antigo (nesta zona a arquitectura dos edifícios baseia-se em dois temas base: o período pós-medieval dos séculos XIII e XIV e a arquitectura clássica lisboeta dos séculos XVIII e XIX. Fontes, lagos e atracções aquáticas proporcionarão ao visitante, um regresso ao passado);
– Fronteira intergaláctica (Nesta zona os edifícios são inspirados em temas de ficção científica e personagens espaciais, constituindo representações fictícias de um futuro imaginado);
Para além do parque Temático existe ainda inserido neste empreendimento turístico o Galaxy Hotel (que será constituído por 8 pisos e terá o formato de uma nave espacial bem como a decoração do interior. Terá capacidade 285 lugares de estacionamento, 230 quartos duplos, 16 suites, 3 salas de reuniões, com capacidade para 440 pessoas nas totalidade, bem como zonas de estar, bar, restaurante, salas de jogo).
O Galaxy Shopping pretende retractar a arquitectura tradicional portuguesa, arquitectura europeia, história de Portugal e História dos Descobrimentos. O edifí­cio pretende possibilitar ao visitante uma viagem por estes períodos através da observação das fachadas das lojas e visualização de animações permanentes dentro do edifí­cio.
Relativamente à afluência prevê-se que o parque tenha, em média 7000 visitantes por dia e um milhão por ano. O parque estará aberto de Abril a Outubro e o Hotel e Centro Comercial estarão abertos todo o ano.
Nos últimos meses não existem notícias sobre o parque que tinha inauguração prevista para Março de 2008.

Os Parques Temáticos Históricos Internacionais

A nível internacional o património imaterial endógeno tem sido alavanca de progressão económica. Como já analisamos, a partir da década de 90 do século passado existiu um crescimento exponencial de parque temáticos.
A nível mundial com maior incidência europeia, fizemos uma selecção de parques temáticos históricos que usam os seus recursos endógenos para os promover, divulgar e comercializar. Da selecção efectuado existem mega-parques que têm uma amplitude turística maior que outros com uma amplitude regional e local. Contudo, não deixam de ter na sua base temática os recursos patrimoniais imateriais.

Do levantamento efectuado salientam-se países como a Áustria, França e Inglaterra com um número elevado desta topologia de parques. A estes países está muito ligado o espirito patriótico histórico. A França, devido à sua história medieval aposta nesta temática como meio impulsionador da economia local e regional.
Da listagem efectuada seleccionamos os seguintes:
– Archeologischer Park Carnvntvm -Áustria (parque arqueológico que retrata a época romana e a presença desta civilização na região. O parque está ligado a uma série de recursos existentes na região transformando-os numa rede);
– Terra Mítica – Espanha (parque de diversões que representa cinco civilizações históricas: Egipto, Grécia, Roma, Ilhas Gregas e Península Ibérica.);
– Isla Magica – Espanha (parque de diversões que representa a época dos descobrimentos espanhóis. O parque divide-se entre Sevilha porto das ͍ndias, Quetzal, Porta da América, Amazónia, A guarida dos piratas, O Balcão da Andaluzia, Fonte da Juventude e El Dourado);
– Guédelon – França (um parque que reconstitui a criação de um castelo medieval. Ao longo da visita o turista observa como se construía um castelo no século X. Os trabalhos decorrem desde 1997 e são necessários 25 anos até à sua finalização. Todo o processo de construção está de acordo com o que era feito na época medieval.);
– Puy Du Fou – França (parque histórico que retrata toda a história francesa e em especial a história local através da recriação de uma batalha ocorrida em 1429 no castelo de Puy Du Fou).
– Archeon – Holanda (parque arqueológico que recria a pré-história, a época Romana e idade medieval da região que faz do experimentalismo nota dominante);
Como análise aprofundada seleccionamos o parque Salva Terra que se situa em Haute-Rivoire perto de Lyon, França. Haute-Rivoire é uma pequena vila e tem uma densidade populacional de 58 hab./km² com um total de 1182 habitantes (em 1999). Ao contrário de Lyon (uma cidade industrial), Haute-Rivoire é uma localidade em que a agricultura e a pastorícia predominam numa paisagem onde a natureza está sempre presente.
Todo o parque recria a Época Medieval e todos os actores (profissionais do parque) estão representando uma personagem medieval. O parque divide-se em quatro áreas fundamentais. A cidade fortificada onde o visitante poderá ver em acção as profissões mais usuais da época medieval, uma taberna ou mesmo as tendas que se usavam para se abrigarem das chuvas. A segunda área é a dos Saltimbancos onde o turista convive com um trovador, um malabarista e rodeado por música. O Acampamento dos Guerreiros é a área temática que se segue. Aqui os visitantes ficam a conhecer algum armamento histórico e como se fazia a “arte da guerra”. No final desta área os participantes são convidados a recriar uma batalha. Por fim a área do Liceu dos Cavaleiros onde os turistas poderão recuar no tempo e experimentar um dos muitos jogos medievais, ver um torneio medieval e/ou duelos entre cavaleiros.
Importa salientar que a visita a cada um dos espaços é feita de forma interactiva com diálogo vertical e horizontal. Para além deste constante diálogo o turista/visitante é desafiado a participar nos vários workshops que cada área oferece. Desde ateliers de Caligrafia, de Heráldica, de acrobacias ou de equitação.

Os Parques Temáticos Históricos como perpetuadores do património imaterial

Como refere Mary Ashton, “os parques temáticos representam, hoje, uma proposta de pesquisa multifacetada, ligada ao turismo, à economia, sociologia, história, geografia, e tantas outras áreas” (ASTHON, 1999). As Ciências Sociais nos últimos anos têm articulado conhecimentos e estratégias de investigação e os Parques Temáticos são uma das áreas de estudo que podem permitir um aperfeiçoar das sinergias interdisciplinares. Em Portugal não existe uma tradição de criação de parques temáticos históricos ma sua génese mais usual que foi a que analisamos anteriormente. Contudo, como nos diz Shields “os shopping constituem-se como maior atracção turística após a Disney. Aí, olhámos e somos olhados como se estivéssemos de férias” (SHELDS, 1989). Estes “não lugares” como diz Marc Auge, são cada vez mais um fenómeno de troca de experiências patrimoniais e um exemplo da cultura imaterial contemporânea. Esse fenómeno em Portugal tem crescido de forma singular. Aliás, o Shopping é um dos produtos definidos como estratégicos pelo Plano Nacional de Turismo(PENT, 2007). Sucessivamente são inaugurados estes mega-espaços culturais por todo o país. A par destas aberturas tem surgido a tendência de uma ligação afectiva à cidade que recebe estas superfícies. Como verificamos no projecto do Galaxy todo o shopping estaria decorada com elementos da História Nacional de forma a preservar e facilitar a Memória colectiva. Nos casos mais recentes das superfícies comerciais essa investigação tem sido executada com sucesso. Veja-se o caso do 8ª Avenida em São João da Madeira. Este shopping tem como temática a história local dos Chapéus e dos Sapatos, para além de existirem fotos históricas da cidade ao longo dos corredores.
Este movimento insere-se num maior de tentativa de não esquecer o passado e de preservação da memória. Esse é o objectivo dos parques temáticos históricos. A tentativa de preservar e divulgar os recursos endógenos de determinado momento e de um local específico. Obviamente não podemos esquecer que existe a oportunidade lucrativa nesta preservação patrimonial, mas esse é um aspecto também ele cultural, já que o capitalismo faz parte da cultura ocidental. Mas com essa característica pode a sociedade conviver tranquilamente já que o acesso à cultura é, no mundo de hoje, olhada como se fosse consumível como qualquer objecto numa montra de shopping. Em Portugal este é um mercado em clara expansão e uma oportunidade económica muito interessante.
A par do sector privado verificamos que a Cultura em Portugal está muito ligado ao sector público. A cultura, principalmente nos últimos anos, passou a fazer parte das obrigações sociais das autarquias. Por questões orçamentais, os municípios não dispõem de capacidade para construir um parque temático que funcione durante todo o ano e que tenha uma amplitude turística. Quanto muito organizam eventos de um curto espaço de tempo em que constroem um parque temático. Podemos citar os exemplos de Óbidos Vila Natal, a Viagem Medieval em Terra de Santa Maria ou a Terra dos Sonhos em Santa Maria da Feira. A outra via de apoio passa por criar condições economicamente favoráveis para a implementação de um mega parque no seu território. Isto é, através de incentivos ou isenções fiscais potencializar a penetração de grandes empresas de parques de diversões. Como exemplo temos o Sea Life que está a ser implementado no Porto.
Portugal detém um gigantesco património imaterial que não tem correspondência no património material e muito menos no reaproveitamento desses recursos endógenos. No país não existe um único parque que faça referência aos Descobrimentos. Em contrapartida Espanha detém vários parques sobre esta temática. Como exemplos temos o Terra Mítica e o Isla Mágica.
Os parques temáticos históricos são perpetuadores do património imaterial porque apelam ao sentido de memória colectiva e exaltam os valores históricos. Neles, apesar da componente economicista, estão implícitas temáticas que fazem parte do património endógeno de uma determinada região. Os conteúdos temáticos dos parques, apesar da sua vertente de lazer, fazem referência a um passado, a uma tradição ou a uma memória que poderia ser esquecido se não existisse esta vertente.

Bibliografia:

– ASHTON, Mary Sandra G. – Parques Temáticos. Porto Alegre: 1999.
– BRAUN, Raymond – Theme Park Development Case Study: Fiesta Texas. Hong Kong: 1993.
– CORREIA, Miguel Brito e LOPES, Flávio – Património arquitectónico e arqueológico. Cartas, recomendações e convenções internacionais. Lisboa: 2004.
– GALAXY PARK – Estudo de Impacto Ambiental. Lisboa: 2002.
– HENRIQUES, Cláudia – Turismo Cidade e Cultura. Lisboa: 2003.
– Instituto para a qualidade na formação, I.P. – Preservação, Conservação e Valorização do património cultural em Portugal. Lisboa: 2006.
– LYNCH, Kevin – A imagem da cidade. Lisboa: 1982.
– PEIXOTO, Paulo – O património mundial como fundamento de uma comunidade humana e como recurso das indústrias culturais urbanas. Coimbra: 2000.
– PEIXOTO, Paulo – A identidade como recurso metonímico dos processos de patrimonialização. Coimbra: 2004.
– PINHO, Tânia e LEMOS, Fernando – Turismo temático: A criação de um Parque Medieval. Gaia: 2006.
– SIMÃO, Lucieni de Menezes – Os mediadores do património imaterial. S/Le.: 2003.
– VELHO, Gilberto – Património, negociação e conflito. S/Le.: 2006.
– YOSHII, Chris L. – International Theme Park Development and Trends. Shenzhen, China: 2002.

Fontes: Legislação

– Lei n.o 107/2001 – Estabelece as bases da política e do regime de protecção
e valorização do património cultural.
– INTERNATIONAL CHARTER FOR THE CONSERVATION AND RESTORATION OF MONUMENTS AND SITES (THE VENICE CHARTER 1964).
– CONVENÇÃO PARA A PROTECÇÃO DO PATRIMÓNIO MUNDIAL, CULTURAL E NATURAL. Paris de 17 de Outubro a 21 de Novembro de 1972.
– CHARTER FOR THE CONSERVATION OF HISTORIC TOWNS AND URBAN AREAS (WASHINGTON CHARTER 1987).
– CHARTER ON THE BUILT VERNACULAR HERITAGE (1999).
– CHARTER FOR THE PROTECTION AND MANAGEMENT OF THE ARCHAEOLOGICAL HERITAGE (1990).

Fontes: Internet
-Projecto de Parque Medieval (França ) lhttp://www.parkothek.info/dossier.php?id=8&page=1
– Portal dos parques temáticos espanhóis l http://www.bookingpark.com
– Parque temático Terra Mítica (Espanha) l http://www.terramiticapark.com
– Parque temático Senda Viva (Espanha) l http://www.sendaviva.com
– Parque temático Isla Mágica (Espanha) l http://www.islamagica.es
– Parque temático Guédelon (França) l http://www.guedelon.fr/
– Parque temático Asterix (França) l http://www.parcasterix.fr
– Parque temático Salva Terra (França) l http://www.salva-terra.com/
– Parque temático Puy Du Fou (França) l http://www.puydufou.com
– Festival Medieval (Inglaterra) l http://www.mgel.com
– Festival Medieval (Inglaterra) l http://www.tewkesbury-medieval-fayre.org.uk
– Parque temático Archeon (Holanda) l http://www.archeon.nl
– Parque temático Archeologischer Park Carnvntvm (Austria) http://www.carnuntum.co.at/
– Festival Medieval (Dinamarca) l http://www.middelalderfestival.dk
– Resort (Noruega) l http://www.pers.no
– Parque temático Europarque (Alemanha) l http://www.europapark.de
-Portal de Aude langdoc (França) l http://www.midi-life.com/News/Grand_Parc_Medieval_in_the_Aude.htm
– Parque e festival medieval (EUA) l http://www.medievalworld.us
– Festival Renascentista (EUA) l http://www.renaissancefestival.com
– Festival Medieval (EUA) l http://www.whidc.org/home.html
– Grupo de recriações históricas (EUA) l http://www.medievaltimes.com
http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=280964
http://www.cultura-lvt.pt/

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9 respostas a Os Parques Temáticos Históricos como preservadores do Património Imaterial

  1. Pingback: Parque das Descobertas « Conexão

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  3. Tatiana diz:

    Ótimo blog, venho sempre aqui. Continue escrevendo. Abraços!

  4. Excelentes conteúdos, parabéns.
    Por favor vão enviando novas actualizações.
    Obrigado.

  5. Pingback: Bracalândia – Inauguração de Parque temático | 5ª Cidade

  6. Pingback: Parque das Descobertas « Urbscape

  7. claudia oliveira diz:

    Gostei muito do conteudo desta matéria.

  8. Miguel Dias diz:

    Muito interessante, excelente matéria para o meu trabalho. Obrigado

  9. Jasam diz:

    Boa tarde,Acabei de ler o vosso post e, como sou jatnolisra em S. João da Madeira, gostava de saber que estudo é esse que citam e onde o posso encontrar.Obrigada.

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