Urbanidade

[Nota: Este artigo foi publicado em 2006 no catálogo da exposição colectiva Pollen. A imagem reproduz uma obra de Cristóvão Neto]

sd2.jpg

URBANIDADE

«Não se vêem vírgulas entre as casas, o que torna tão difícil a sua leitura e as ruas tão cansativas de percorrer. / A frase nas cidades é interminável».Henri Michaux

1. A urbanidade é a virtude presente naquele que habita a urbe. Nos dicionários aparece como: «delicadeza requintada, observação das boas maneiras no relacionamento com os outros, acompanhadas geralmente de finura e elegância na linguagem, distinção no porte, nas atitudes». Deve-se entender esta acepção de urbanidade à luz de uma ancestral oposição entre a cidade e a ruralidade, entre a cidade e a barbárie. As qualidades inerentes a esta virtude evoluiram para qualidades essencialmente sociais, em que a ética e a política foram eclipsadas por uma espécie de esteticismo social com um certo sabor a dandismo, muito apropriado à ecologia dos salões. Em todo o caso, a urbanidade marcaria a diferença entre o homem educado, culto e iniciado no complexo código de praxes sociais e o restante da humanidade, não necessariamente rural, mas seguramente menos sofisticada e cultivada.

2. Nos tempos que correm, a urbanidade entendida nestes termos poderá ser um anacronismo pela simples motivo que, de uma maneira ou de outra, todos nós somos urbanos: uns, a maioria, porque residem nas cidades ou nas suas periferias; outros, a minoria, porque apesar de residirem no espaço rural não possuem qualquer marca de distinção relevante que os demarque do resto. O êxodo rural, a concentração dos centros de decisão política – bem como dos pólos económicos – nas cidades, a industrialização da agricultura e a turistificação da paisagem, são algumas das causas que levaram à decadência deste espaço, que hoje em dia é mais tido como uma extensão do espaço urbano (reserva agrícola e reserva ecológica) do que uma realidade social e cultural específica. É na cidade que encontramos a nossa humanidade actual, é aí que se jogam as decisões essenciais da nossa história, onde por nós são assumidas e onde de novo são questionadas.

3. Portanto, quando utilizo o conceito «urbanidade», já não me refiro nem a uma qualidade social «light» nem ao oposto da ruralidade. Refiro-me antes a uma virtude essencial que define o homem actual na sua condição urbana. De certo modo, trata-se, em parte, da civitas romana, a qualidade daquele que é de Roma, só que, neste caso, nada há fora de Roma. Esta virtude é em simultâneo uma virtude social, cultural e política. Como veremos, cultura e política não são duas dimensões que se excluam mutuamente, isto apesar do discurso crítico e apocalíptico anti-poder da arte e apesar do filistinismo do poder político. Tal como o tempo tratou de dissolver as pedras das velhas cidades, também tratou de revogar a ordem tradicional da coisa comum.

4. Já não me recordo de quem disse que «O artista é o primeiro indivíduo». A modernidade na arte fez-se justamente no sentido da descoberta do indivíduo, através de um movimento de rebelião persistente. Hoje, uma peculiar serenidade invadiu a arte. Os ismos foram ordeiramente conduzidos aos museus e aos catálogos dos coleccionadores. Hoje, a banca oferece pacotes de investimento em arte, as grandes empresas contratam gestores para as suas colecções de arte e os estados têm programas de apoio à  produção e divulgação das artes. Paradoxalmente, nada disto parece comprometer o culto da criatividade individual. Ou, se compromete, parece, pelo menos, não incomodar ninguém. É óbvio que a arte mudou, bem como a sua função e representação social. Mas não foi a única: a sociedade também mudou, seguindo a direcção que a arte de uma forma pioneira havia apontado, ou seja, a individualização. E aqui também encontramos o mesmo paradoxo: uma sociedade de consumo massificada aparenta ser compaginável com o culto do indivíduo.

5. É nas cidades que se dá a emancipação dos indivíduos, onde a urbanidade, condição urbana da humanidade, se edifica sobre uma ruptura com o tempo circular e com a cultura da iteração que caracterizavam a vivência da temporalidade pré-urbana. Mais do que uma circunstância económica, social e arquitectónica, a urbanidade é a temporalidade da comunidade percepcionada do ponto de vista do indivíduo. O tempo das urbes é linear, mas segmentado e retalhado pela actividade económica e social que, apesar de tudo, possibilita um não-tempo destinado ao lazer e à intimidade, oferecendo as condições necessárias à  criatividade e à exploração de si. As sociedades rurais celebram a repetição, ritualizando a vivência colectiva do ciclo, ao passo que as sociedades urbanas aderiram a um tempo indefinido, sem um sentido óbvio e que se caracteriza por um acumular de vestígios, de um lado, e, do outro, por uma necessidade de superação. O tempo é como uma estrada que se nos foge debaixo dos pés. As cidades são comunidades de indivíduos em trânsito no tempo. É então que surge a questão da memória e é então que surgem as narrativas colectivas, em primeiro lugar, logo seguidas dos relatos pessoais à  medida que a escrita se vulgariza, à  medida que as cidades se expandem. A par da cidade dos edifícios e das ruas, vai-se edificando uma cidade de papel. Numa residem os cidadãos, noutra as memórias e os desejos. São cidades paralelas.

6. Diz Jean-Luc Nancy, em Le vestige de l’art que «a arte tem uma história, talvez seja radicalmente história, quer dizer, não progresso, mas passagem, sucessão, aparição, ocultação, acontecimento. Mas em cada vez é a perfeição, é a realização que ela oferece». A história da arte começa com as cidades e é também nas cidades que o homem desenvolve a arte da história. Criar implica um horizonte temporal aberto. Cada obra é efémera porque já não se encontra reconfortada pela antiga circularidade, é sempre um gesto que traz consigo a marca da instabilidade do indivíduo e do rumo do tempo. Todavia, há sempre o vestígio que fica, que vai ocupando um lugar, ou melhor, que vai fazendo um lugar delineando um mapa de uma memória partilhada. A perfeição é o vestígio que nos marca o caminho. Uma obra de arte perfeita é aquela que doa sentido, isto é, que permanece na memória dos homens como um marco identitário.

7. Há quem diga que estes são os últimos dias da pólis e há quem diga que estes são os dias em que a pólis se tornou, finalmente, naquilo que em potência já era antes de o ser. As cidades expandiram-se numa espécie de contínuo, de rede inacabada e imprevisível. Mas, ao mesmo tempo, deixaram-se morrer por dentro. Sobre este processo de megapolização ocorre um outro processo de urdidura de uma Telepólis. As cidades não só cresceram desmesuradamente, como também se descentraram. Apenas simbolicamente os centros subsistem enquanto significantes convencionais. A comunicação, a economia e a política estão mais difusas. As ruas e as praças perdem relevância para os meios de comunicação imateriais. De certo modo, é como se as cidades se tivessem pulverizado numa última metamorfose e os indivíduos gravitassem como uma nuvem em torno da cidade mundial. Neste último estádio fará ainda qualquer sentido em falar em urbanidade?

8. A urbanidade é a virtude de se ser único em comum, de se criar o novo a partir daí  memória colectiva, de se apropriar de um espaço e de um tempo através da partilha. Esta virtude encontra-se intrinsecamente presente em todas as acções humanas. A cultura em geral e a arte em particular (que é a cultura por excelência) são uma das expressões desta virtude a par das leis e da ciência. Hannah Arendt recorda que nos antigos gregos a beleza e a sabedoria só podiam ser amadas dentros dos limites instituídos pela pólis.

9. A reflexão desta pensadora sobre a crise na cultura dá uma certa atenção ao conceito de filistinismo (filisteu: aquele que é indiferente à arte, apreciando tudo em termos estritamente materiais) constatando que «essa espécie de filistinismo que consistia apenas em ser «inculto» e vulgar, deu lugar muito rapidamente a um desenvolvimento contrário, pelo qual a sociedade começou a manifestar demasiado interesse por todos os chamados valores culturais. A sociedade começou a monopolizar a «cultura» para os seus próprios fins, como os de status e posição social». Este tipo de manipulação da arte não constitui novidade. A ela sempre se associou a elite e o poder e vice-versa. Quando chegados à modernidade as elites passaram a chamar-se «vanguardas» e as coisas tornaram-se apenas um pouco mais complexas. Contemporaneamente, numa sociedade de massas, sem estábulos sociais, a arte presta-se exactamente às mesmas funções que outro qualquer produto de consumo. É evidente que poderá ser usada como trampolim de valorização pessoal ou de valorização uma cidade ou até mesmo de uma nação. Todavia, nada disso esgota ou inquina a arte. Se alguém dá um uso diverso daquele para que algo foi imaginado, esse uso não altera o uso primordial da coisa. Não há monopólio social sobre arte, o que há é um uso social da arte. O que é interessante é que, mesmo de uma forma inconsciente, a posse e ostentação de objectos culturais indicia o reconhecimento implícito de que ali há algo mais escondido….

10. Os investimentos colossais que as cidades contemporâneas fazem na arte, ou melhor, em museus, em feiras e em mega-exposições, fazem parte de uma estratégia político-económica. A atractibilidade dos centros urbanos do 1º Mundo já não depende em exclusivo dos seus índices de bem-estar e da sua capacidade de gerar (e redistribuir) riqueza, e a oferta cultural passou a ser um factor decisivo na escolha de uma cidade entre centenas para se visitar ou para se viver. Esta escalada é grandiosa mas, na essência, talvez corresponda à actualização de um fenómeno há muito conhecido e que entusiasmou Bataille: o potlatch. Diz Bataille: «Se os recursos que detém são redutíveis a quantidades de energia, o homem não pode reservá-los incessantemente para os fins de um crescimento que não pode ser infinito, que sobretudo não pode ser contínuo. É necessário dissipar o excedente, mas o homem continua a ser ávido de adquirir ainda quando faz o contrário, e torna a própria dissipação um objecto de aquisição; uma vez volatizados os recursos, permanece o prestígio adquirido pelo que dissipa». A arte aqui é vista como uma válvula de escape social, por onde se dissipam os excessos, onde se sacrifica a riqueza sob a forma de desperdício luxuoso, desperdício esse, que por ironia, se transforma numa mais valia social, na medida em que contribui para a elevação do estatuto de quem o pratica. No entanto, continuamos num domínio em que arte não é assumida como um fim em si mesmo, mas como uma acção e/ou um bem instrumentalizável. A questão continua em aberto: podem a cultura e a arte em si mesmo ter um significado social e político? Ou por outras palavras: é a urbanidade uma virtude estética?

11. Quase como uma resposta a estas questões Hannah Arendt: «A transitória grandeza das palavras e das acções só pode durar no mundo se estiver associada à beleza. Sem a beleza, o mesmo é dizer, sem essa glória refulgente na qual a potencial imortalidade é tornada manifesta no mundo humano, tudo na vida humana seria efémero e nenhuma grandeza poderia perdurar». Acrescentando de seguida: «O elemento comum que liga a arte à política é o facto de ambas serem fenómenos da esfera pública». A arte não se torna pública por via de uma instrumentalização política, ela é, já por si e em si, um acto público, logo político. Trata-se de uma forma de humanismo, pelo qual criamos, preservamos, cuidamos e admiramos as coisas no mundo. «A cultura e a política são, portanto, afins porque nelas o que está em jogo não é o conhecimento nem a verdade, mas antes o juízo e um processo de decisão: uma judiciosa troca de opiniões a respeito da vida pública e do mundo comum, e uma escolha do tipo de acções que no mundo devem ser empreendida, assim como o aspecto que esse mesmo mundo deve ter doravante e qual o tipo de coisas que nele devem aparecer». Não se entenda esta ordem de ideias como uma redução da cultura à  política. Parece-me que o mais razoável é considerar a cultura e a política como duas expressões da mesma virtude: a urbanidade. Sempre é mais claro do que dizer que a política é uma forma de arte ou que a arte é uma forma de política.

12. Voltemos à  questão da memória, desta vez pela mão de Ricoeur. A identidade dos indivíduos constrói-se num «espaço de experiência» que resulta da sedimentação do passado que forma a base em que acentam os nossos medos, previsões, projectos e, em resumo, todas as antecipações que nos projectam no futuro. A esta projecção chamamos «horizonte de espera». Este jogo dialéctico entre «espaço de memória» e «horizonte de espera» configura o «presente vivo» de uma sociedade. Ora, acontece que nos auto-percepcionamos como sujeitos que se deslocam no tempo, ou seja, possuímos uma «consciência histórica». Esta orientação no tempo resulta, em primeiro lugar, do impulso que é dado pelo «horizonte de espera», afectando correlativamente o «espaço de experiência», seja para o enriquecer, seja para o empobrecer. A nossa relação com o mundo será muito mais influenciada pelas nossas expectativas do que pela experiência passada, ponto um. Ponto dois: quanto maior a expectativa, maior o conhecimento sobre o nosso «espaço de experiência».

13. Se não nos importarmos de atribuir uma função à  arte, então poderíamos dizer que uma das funções da arte é criar expectativas, isto é, construir um «horizonte de espera». As cidades vivem exactamente disso, na medida em que são mais do que um aglomerado (ou uma nuvem) de indivíduos, de edifícios e de ruas. As cidades que envelheceram sofrem de um trauma provocado por um excesso de memória. Vivem cercadas de memória não digerida: nomes ilustres que agora emprestam o nome às ruas, datas ciclicamente comemoradas, locais sacralizados pela história e, sobretudo, um casario vazio. Todo este «espaço de experiência» com facilidade se deixa tomar por mero cenário. E a cenografia é um dos estados post-mortem que as cidades podem assumir, como que embalsamadas para memória futura. Não nos resta muito mais do que aprender a digerir este excesso para encontrar o caminho de regresso à  cidade.

David Afonso

Bibliografia:

AAVV, Squatters/Ocupações: A memória da casa e as histórias da cidade, Porto: Porto 2001, Capital Europeia da Cultura, 2001

Arendt, Hannah, Entre o passado e o futuro: oito exercícios sobre o pensamento político, Lisboa: Relógio d’Água Editores, 2006

Bataille, Georges, A parte maldita (precedido de A noção de despesa), Lisboa: Fim de Século, 2005

Nancy, Jean-Luc,  Les muses, Paris: Éditions Galilée, 1994

Ricouer, Paul, La lectura del tiempo pasado: memoria y olvido, Madrid: Arrecife, 1998

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

3 respostas a Urbanidade

  1. António J. Costa diz:

    quem sabe o que diz..sabe do que fala!
    boa malha.

  2. Magna Milfont diz:

    A urbanidade é mais que um conceito, ela é antes de tudo, experiência histórica e existêncial da humanidade

  3. Pingback: Os números de 2010 | 5ª Cidade

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s